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A guerra no Oriente Médio transformou a rotina de milhares de famílias iranianas — inclusive daquelas que hoje tentam recomeçar a vida longe de casa. Em Maringá, a iraniana Leila Rahimi, de 39 anos, acompanha com angústia, a milhares de quilômetros de distância, o agravamento do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos, enquanto tenta reconstruir a vida ao lado do marido, de 46 anos, e dos dois filhos: de 7 anos, e de apenas nove meses.
Há cerca de três meses vivendo na cidade, Leila deixou para trás a cidade de Arak, no Irã, onde construiu sua história ao longo de 18 anos ao lado do marido. No país de origem, o casal mantinha uma empresa comercial e uma vida estável. Ela trabalhava na Câmara de Comércio de Arak e também tinha uma pequena galeria de arte. Apesar da rotina tranquila, a inflação crescente e a instabilidade econômica fizeram com que a família passasse a considerar a imigração.
“Vendemos o resultado de 18 anos da nossa vida, guardamos nossos pertences e emigramos com apenas duas malas. Quando entrei no avião e percebi que estava deixando minha família, minha casa e toda a minha história para trás, foi um dos momentos mais difíceis da minha vida”, relata Leila.
Comunicação por tradutor com iraniana
Sem falar português, Leila precisou conceder a entrevista ao Maringá Post com auxílio de aplicativos de tradução, convertendo as perguntas do português para o persa e vice-versa. A barreira do idioma, segundo ela, é um dos maiores desafios enfrentados desde a chegada ao Brasil.
“Viver sem saber o idioma é muito difícil. Nosso filho teve dificuldades na escola e tivemos que criar cartões para que ele pudesse expressar seus sentimentos e necessidades”, conta.
Ela afirma que, mesmo longe da guerra, o sofrimento continua presente no dia a dia. Parte da família permaneceu no Irã, incluindo a mãe e a irmã do marido, e o contato nem sempre é possível.
“Às vezes é difícil manter contato com a família, e isso traz muita angústia. Estar longe nesse momento é muito doloroso”, diz.
Recomeço em Maringá
Em Maringá, a família tenta reconstruir a vida do zero. Artista no Irã, Leila produzia obras exportadas para outros países. No Brasil, ela e o marido decidiram empreender no ramo da gastronomia e criaram o perfil “Sabores do Irã”, no Instagram, além de começarem a vender comida por aplicativo.
“Maringá é uma cidade muito limpa e bonita, e as pessoas são muito gentis. Desde o início nos sentimos bem recebidos”, afirma.
Ela também faz questão de agradecer ao povo brasileiro pelo acolhimento.
“O que mais me surpreendeu foi a gentileza e a empatia do povo brasileiro. Isso nos ajudou a não nos sentirmos sozinhos.”
Família de iraniana e o apoio da Cáritas
Por isso, nos primeiros passos no Brasil, a família recebeu apoio da Cáritas Arquidiocesana de Maringá, entidade ligada à Igreja Católica que atua no acolhimento e integração de migrantes e refugiados.
A coordenadora do Sistema Integrado da Cáritas no Paraná, Andressa Gôngora, explica que o trabalho começou em Maringá em 2013, inicialmente com haitianos, e hoje atende migrantes de ao menos 45 nacionalidades.
“Somente em 2025 atendemos 778 pessoas, que geraram 3.357 atendimentos. Uma mesma pessoa chega com uma necessidade e, ao criar vínculo, outras demandas aparecem — documentação, alimentação, moradia, emprego”, explica.
Segundo Andressa, a Cáritas atua em três frentes principais: regularização migratória, assistência emergencial e integração social.
“Nosso trabalho é garantir dignidade humana. Muitas vezes somos os primeiros a olhar essas pessoas nos olhos e ouvi-las. Elas chegam aqui trazendo uma mochila e uma história inteira deixada para trás”, afirma.
Entre os atendidos estão migrantes vindos de países como Venezuela, Nigéria, Marrocos, Irã, Síria, Haiti e Colômbia. Veja abaixo fotos do projeto Cáritas.












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Vozes de outros refugiados
A síria Rima Alzarzouri, de 41 anos, também vive em Maringá e atua hoje como voluntária na Cáritas, ajudando outros migrantes. Ela deixou a Síria há oito anos, fugindo dos efeitos da guerra.
“Talvez não haja guerra na Síria neste momento, mas o impacto continua. Agora, com o conflito no Irã e no Líbano, toda a região sofre novamente”, relata.
Rima afirma que conhece de perto a dor do deslocamento e, por isso, dedica parte do tempo a orientar famílias recém-chegadas do Oriente Médio.
“Quando cheguei, a Cáritas me ajudou muito. Hoje eu ajudo outros migrantes da mesma forma”, diz.
Guerra reacende medo
Enquanto tenta se adaptar ao novo país, Leila acompanha apreensiva as notícias do Irã. Para ela, viver longe da terra natal em meio ao conflito é carregar diariamente o peso da distância e da incerteza.
“O povo iraniano é trabalhador, familiar e busca apenas uma vida tranquila e segura”, resume.
Esperança em meio ao caos
Ao recordar a decisão de deixar o Irã, ela descreve a migração como uma ruptura profunda, marcada pela dor de abandonar tudo o que foi construído ao longo de uma vida inteira.
“Migrar talvez seja a coisa mais difícil do mundo. É como passar a vida inteira construindo uma casa, investindo cada esforço, cada centavo, e de repente ser obrigado a abandoná-la para começar do zero em um lugar completamente desconhecido”, relata.
A iraniana também critica a situação política no país de origem e afirma que muitas famílias foram forçadas a deixar para trás suas casas, histórias e sonhos.
“O regime da República Islâmica é cruel. Muitas pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas, suas memórias e seu passado. Meu marido e eu construímos tudo sozinhos, sem apoio financeiro, trabalhando dia e noite. Um dia, tivemos que deixar tudo para trás e partir para um continente distante, onde não conhecíamos ninguém e não havia sequer uma comunidade iraniana próxima”, diz.
Apesar da dor da distância, Leila diz que a esperança continua sendo a principal força para seguir em frente. Mesmo longe da família e enfrentando o desafio de recomeçar em um país desconhecido, ela acredita que sua trajetória carrega um propósito.
“Sei que nada neste mundo acontece por acaso. Tenho fé de que um dia deixarei todos esses problemas para trás e poderei reconstruir minha vida, consolidando meu lugar como uma mulher iraniana bem-sucedida. Quero que nossa história sirva para que nunca esqueçamos nossas origens e as circunstâncias que nos trouxeram até aqui. Recebi muito amor do povo brasileiro. Amo o povo brasileiro, o Brasil e a cultura brasileira.”, afirma.
















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