Há cerca de duas décadas, ela é uma mulher de destaque em um meio majoritariamente masculino. Foram dezenas de oitivas, processos e tribunais do júri que deslancharam a vida da advogada criminalista maringaense, Josiane Monteiro Bichet de Oliveira, mais conhecida por Josi Monteiro.
Se para muitos estudantes a faculdade de Direito é uma pretensão à ascensão pessoal e profissional, para Josi o caminho foi bem distinto: foi uma forma que ela, ainda jovem, buscou a justiça para honrar a memória do pai, morto em 1996, vítima de um assassinato. O autor nunca foi preso. Essa talvez seja a maior frustração da vida da jurista, em saber, dentro da própria história, que por mais que se busque a Justiça, para alguns, nunca chega.
“Ingressei no Direito em 2007 não apenas por uma escolha profissional, mas para fazer justiça pela morte do meu pai, ocorrida em 1996. Na época, o culpado desapareceu e eu acreditava que a faculdade me daria as ferramentas para encontrá-lo. Durante o curso, sofri a decepção de entender que o Direito nem sempre busca a justiça que idealizamos; descobri a prescrição e isso me abateu. Já formada, encontrei o homem que tirou a vida dele, mas não pude mais processá-lo. Foi dessa frustração pessoal que nasceu minha verdadeira vocação para atuar na área criminal.”
Antes de tudo, filha. Depois de tudo, mãe. Josi tem três filhos jovens, pelos quais busca, por meio da trabalho, levar inspiração. E neste caso a inspiração foi tamanha que o filho mais velho, de 18 anos, escolheu seguir o mesmo caminho profissional da mãe.
CASOS DE DESTAQUE NACIONAL
A advogada maringaense esteve – e está – à frente de casos emblemáticos que pararam o Brasil: o caso do Maníaco da Torre (serial killer de Maringá acusado de matar, ao menos, seis mulheres em Maringá); o caso Tábata Fabiana (menina de seis anos de idade, estuprada, morta e enterrada em Umuarama); o caso Daniela Marinelo (policial militar assassinada pelo próprio companheiro em Maringá) e o caso dos Desaparecidos de Icaraíma (cobradores do interior de São Paulo que foram torturados e mortos por uma família no Noroeste do Paraná).
E estar à frente de casos de grande repercussão também têm seus pontos negativos: a exposição, o machismo e o preconceito são problemáticas presentes na vida da criminalista.
“No início, como mulher, foi muito difícil ser respeitada na área criminal. Lembro da primeira vez que fui à Penitenciária Estadual de Maringá; eu era jovem, as pessoas não me conheciam e alguns homens assoviaram. Senti um constrangimento enorme e cheguei a questionar se aquele era mesmo o meu lugar. Mas a paixão pela profissão falou mais alto. Decidi que iria continuar até que me respeitassem como a advogada criminalista que eu buscava ser.”
MATERNIDADE, DIREITO E SEGURANÇA
Conciliar o trabalho e a maternidade não é tarefa fácil para a advogada. A rotina de viagens, audiências e atendimentos impediu Josiane de estar presente em alguns momentos importantes da vida dos filhos.
“Perdi fases importantes dos meus três filhos; não vi os primeiros passos nem pude estar presente na maioria das reuniões escolares. Isso sempre me trouxe uma culpa e uma tristeza muito grandes. Hoje, ver meu filho mais velho na Universidade Estadual de Maringá, cursando Direito e me citando como sua maior referência, é o que me traz tranquilidade. Saber que eles sentem orgulho da minha trajetória profissional acalenta o meu coração.”
A segurança também é uma questão central no dia a dia da advogada. Por conta das atuações em grandes casos, tanto na defesa de réus quanto no interesse das vítimas, as ameaças se tornaram presentes na vida de Josiane, que precisa estar acompanhada de seguranças em muitas das viagens que faz. Mas o medo não se restringe apenas à vida profissional e perpassa também a vida familiar.
“A atuação na área criminal me fez colecionar amigos, mas também muitos inimigos. Já registrei diversos boletins de ocorrência por ameaças e, em certas diligências, só viajo acompanhada por seguranças. Como mãe, o peso é ainda maior: preciso monitorar a vida digital dos meus filhos, pedindo que mantenham perfis privados e não compartilhem localizações. O medo não é apenas por mim, mas pela segurança da minha família diante dos riscos que a profissão impõe.”
POR MAIS MULHERES NO DIREITO CRIMINAL
‘Não desistir nunca’. Esta é a mensagem da advogada para as futuras operadoras do Direito e para as colegas de profissão. A presença feminina no setor criminal é uma tendência crescente e, para Josiane, indispensável pela sensibilidade e pelo olhar humano que a mulher imprime em sua atuação.
“O Direito Criminal é uma área dinâmica e pulsante que também foi feita para as mulheres. Vejo um interesse crescente das acadêmicas e espero que elas não desistam de seus sonhos. Embora ainda exista uma predominância masculina, nós somos fortes e podemos ocupar o espaço que quisermos. Eu consolidei meu nome nesta área e sou prova de que é possível. Além do conhecimento técnico, nós, mulheres, trazemos uma sensibilidade e uma humanidade muito maiores para o Direito. Espero ver, cada vez mais, o plenário do júri preenchido por rostos femininos.”
















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