(FOLHAPRESS) – O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, vai se lançar para um terceiro mandato nas eleições de fevereiro do ano que vem após o Legislativo -controlado, assim como a maioria das instituições do país, pelo líder- modificar a Constituição e aprovar reeleição indefinida para o cargo.
A novidade foi anunciada na noite do último domingo (12), quando o partido Nuevas Ideas confirmou o político de 44 anos como pré-candidato presidencial em eleições internas nas quais ele concorreu sozinho.
O anúncio já era esperado desde julho do ano passado, quando a Assembleia Legislativa abriu caminho para Bukele permanecer no poder por tempo indeterminado em uma votação relâmpago. Medidas controversas são aprovadas assim no país desde que o Nuevas Ideas conquistou 56 de 84 cadeiras nas eleições legislativas de 2021 -desde 2024, após uma reforma que favoreceu Bukele, o partido tem uma supermaioria de 54 cadeiras entre 60.
Em dezembro do ano passado, Bukele deixou clara a sua vontade de permanecer no poder. “Eu não gostaria de sair agora, mas veremos o que Deus, minha família e o país dizem”, disse, em uma entrevista a um youtuber espanhol. “Mas, se dependesse de mim, eu ficaria por mais dez anos.”
A declaração é uma das muitas que contradiz falas do passado. Em 2013, ele disse que, em El Salvador, era possível ser presidente 80 vezes, mas não consecutivamente, “para garantir que [o político] não permaneça no poder e use seu poder para se manter no poder”.
Bukele foi eleito em 2019 e deveria ter deixado a Presidência dentro de cinco anos, como vinha acontecendo desde os Acordos de Paz que colocaram fim na guerra civil do país, em 1992. No entanto, em 2024 ele contornou a Constituição com a ajuda de órgãos que aparelhou após a vitória nas eleições legislativas de 2021, como a Sala Constitucional, o equivalente ao Supremo Tribunal Federal no Brasil, o Ministério Público e o Tribunal Supremo Eleitoral.
Na época, ele dizia que aquele seria seu último mandato.
Ao que tudo indica, as eleições do ano que vem serão como as de 2024: praticamente sem oposição. Há dois anos, o presidente venceu com 84,65% dos votos, enquanto os partidos que outrora alternavam o poder no país, a FMLN (Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional) e a Arena (Alianza Republicana Nacionalista), conseguiram 6,4% e 5,57%, respectivamente.
Atualmente, a oposição segue praticamente inexistente. Com isso, sobram poucas características de uma democracia em El Salvador.
Em 2025, mais de 50 jornalistas fugiram do país, de acordo com a Apes (Associação de Jornalistas de El Salvador, na sigla em espanhol). A própria organização, aliás, mudou o seu registro para outra nação pela primeira vez desde a sua criação, em 1936 –o que significa que a instituição conseguiu passar por regimes militares e uma guerra civil no século 20, mas não pelo governo de Bukele.
A Apes, assim como outras organizações da sociedade civil salvadorenha, foge de possíveis represálias em decorrência da Lei de Agentes Estrangeiros, aprovada no ano passado. A norma, conhecida por países como a Nicarágua de Daniel Ortega, a Hungria de Viktor Orbán e a Rússia de Vladimir Putin, taxa em 30% transferências feitas de órgãos internacionais para organizações do país e estabelece que esses grupos “se abstenham de realizar atividades que alterem” a ordem pública.
Uma das entidades mais atacadas é a Cristosal, a principal em matéria de direitos humanos no país. A organização vem sendo a principal voz de denúncia de violações que ocorrem desde que El Salvador entrou em estado de exceção, em março de 2022, e nunca mais saiu.
A vitrine da medida, popular por ter diminuído o índice de criminalidade do país, é o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo). É para lá onde o governo supostamente manda ex-membros das gangues que colocavam o país no topo da lista dos mais violentos do mundo há alguns anos. A falta de transparência e os julgamentos em massa, no entanto, tornam impossível saber se as penas são justas.
Em 2025, o local ganhou destaque após receber mais de 250 venezuelanos deportados pelo governo de Donald Trump, aliado de Bukele. Liberados meses depois, dezenas deles denunciaram tortura e maus-tratos em um relatório feito pela Human Rights Watch em parceria com a Cristosal.
Ruth López, integrante da segunda organização, está presa há mais de um ano sob a acusação de desvio de recursos há mais de uma década.
“A detenção prolongada em regime de incomunicabilidade, as restrições à sua representação legal e a falta de transparência no processo levantam sérias preocupações quanto ao respeito às garantias judiciais e ao devido processo legal, não apenas no caso dela, mas também no de milhares de pessoas detidas arbitrariamente em El Salvador”, afiemou a Anistia Internacional em maio deste ano.
















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