O que é realmente o luto? É uma doença a ser curada, um estado passageiro ou uma etapa inevitável da condição humana? Se há vínculo, a ruptura trará dor — e aprender a ressignificar essa ausência é o caminho para retomar a vida. E para oferecer suporte científico e humano a quem atravessa esse processo, o Centro Universitário Cidade Verde (Unicive) realiza a segunda edição do Grupo de Acolhimento para Pessoas Enlutadas, um projeto gratuito e aberto a toda a comunidade. A iniciativa é idealizada, orientada e supervisionada pelo professor e psicólogo José Waldeci — especialista em luto pela PUC-SP, autor de livros e artigos, e pesquisador do tema há mais de uma década.
Em entrevista ao Maringá Post, o especialista explica a ciência por trás do acolhimento em grupo e detalha como a iniciativa auxilia na reconstrução emocional após a perda.
Afinal, como a psicologia define o luto? E por que compartilhar esse processo em grupo auxilia na cura individual?
José Waldeci: É fundamental compreender, antes de tudo, que o luto não é uma doença. Ele faz parte da vida: se existe vínculo, em algum momento haverá ruptura. Cada pessoa o vivencia à sua maneira. A possibilidade de falar sobre a perda, revisitar memórias, encarar o que sobrou e reconstruir um significado traz imensos benefícios terapêuticos.
Hoje, a psicologia dispõe de evidências de que intervenções em grupo são extremamente eficazes. Ao trocar experiências com pares, o participante percebe que, embora cada história seja única, ele não está sozinho. Ouvir o outro e ver como ele enfrenta a dor serve como um poderoso recurso de apoio para a própria caminhada.
P: Existe um tempo “certo” para sentir a dor ou procurar ajuda? Por que algumas pessoas demoram para sentir o impacto da perda?
JW : Cada indivíduo reage com base nos seus recursos psíquicos, nas perdas anteriores, na presença de comorbidades e no suporte que possui. É muito comum observarmos o que a literatura chama de luto adiado: logo após a morte, a pessoa não entra em contato com a dor imediatamente, utilizando isso como uma defesa para dar conta dos compromissos práticos e seguir em frente. Só mais tarde a dor ganha espaço. Fatores como a causa da morte, as circunstâncias e o grau de vínculo influenciam diretamente esse tempo. O grupo acolhe justamente quem já está no momento de encarar e processar essa experiência.
O projeto trabalha com o conceito de “grupo fechado”. O que isso significa na prática?
JW : O grupo fechado significa que a turma que inicia o ciclo é a mesma que o encerra, garantindo sigilo, segurança e fortalecimento dos vínculos. Baseado em 10 anos de pesquisas na área, estruturei os encontros com alto rigor científico.
Iniciamos com a aproximação e o estabelecimento do contrato terapêutico — um acordo verbal pautado pelo absoluto sigilo. A turma terá vagas limitadas (de 12 a 13 participantes) para assegurar a atenção adequada. Vale ressaltar que os alunos que conduzem as sessões passam por preparação e supervisão direta comigo antes e depois de cada encontro.
O que é trabalhado ao longo das cinco semanas do projeto?
JW :O planejamento é gradual. Após a criação do vínculo e do pacto de sigilo, os participantes têm espaço para expressar livremente dores, raivas, angústias e saudades. Em seguida, inserimos a psicoeducação: ensinamos ferramentas práticas para que a pessoa consiga caminhar de forma autônoma após o fim do ciclo, sabendo gerenciar a ausência no seu cotidiano. Por fim, fazemos o encerramento do grupo.
O que mudou em relação à primeira turma do projeto?
JW : O retorno da primeira edição foi excelente. As pessoas relataram ter encontrado um espaço de acolhimento genuíno e sem julgamentos para dar sentido a um momento para o qual nunca estamos preparados. O aprendizado que tivemos foi em relação ao horário: no ano passado o grupo ocorreu à tarde, o que inviabilizou a presença de quem trabalha. Por isso, nesta segunda edição, os encontros serão no período noturno.
Como saber se o luto ultrapassou o limite do natural e exige intervenção profissional?
JW : O sinal de alerta acende quando a dor paralisa a vida. Nem todo mundo precisará de terapia para atravessar o luto, mas a ajuda profissional se torna indispensável quando a pessoa não consegue mais retomar tarefas básicas do dia a dia — como trabalhar, cuidar da casa ou de si mesma —, quando fica fixada exclusivamente na perda ou se vê incapaz de assumir sua nova identidade (como a de viúvo ou órfão) e construir novos laços.
Há restrição quanto ao tipo de vínculo ou causa da morte para entrar no grupo?
JW :Nenhuma. Diferente de grupos específicos para mães ou perdas por suicídio, o nosso projeto acolhe qualquer perda humana por morte: pais, filhos, cônjuges, amigos ou vizinhos com quem se mantinha um forte vínculo. O único pré-requisito é ter 18 anos ou mais.
Qual mensagem final o senhor deixa para quem pensa em se inscrever?
JW: Se a dor da perda está impedindo você de seguir em frente e reorganizar sua rotina, permita-se receber esse suporte. É um espaço seguro, guiado pela ciência e pelo respeito à sua história. As inscrições para o Grupo de Acolhimento vão até o dia 20 de agosto, com vagas limitadas para garantir o cuidado com cada participante.
Serviço- Grupo de Acolhimento para Pessoas Enlutadas – projeto gratuito e aberto a toda a comunidade – Somente para pessoas adultas (18+) que tenham vivenciado a perda de alguém por morte há pelo menos 2 meses. NAC – Avenida Carneiro Leão, nº 756 (Maringá) Horário: 19h30 às 21h Mais informações pelo Whats: (44) 99179-6470
















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