SÃO PAULO, SP´(FOLHAPRESS) – Depois mais de cinco décadas dedicadas à profissão, Gloria Pires vive uma fase de maior autonomia. Sem contrato fixo com a Globo após 54 anos na empresa, a atriz passou a escolher os projetos que fazem sentido para o momento que atravessa e também ampliou sua atuação para a produção e a direção.
É nesse contexto que a artista, que completa 63 anos neste domingo, se prepara para voltar aos cinemas em “Se Eu Fosse Você 3” e experimentar novas possibilidades atrás das câmeras.
Sem interesse em esconder a passagem do tempo, ela afirma que sua relação com a vaidade mudou à medida que deixou de buscar aprovação externa. “Eu não me sinto definida pela idade. Ela não determina minha capacidade de desejar, aprender, trabalhar ou começar alguma coisa nova”.
Casada há 38 anos com o músico Orlando Morais, ela fala sobre a necessidade de permitir que o parceiro mantenha sua individualidade. E reflete sobre a amizade com os filhos e o que a move atualmente na vida. “Quero estar aberta ao que aparece no caminho.”
F5 – Como você se sente hoje, aos 63 anos e após o fim de 54 anos de contrato com a Globo?
Gloria Pires – Hoje sou autônoma, na acepção da palavra. Essa autonomia me permite escolher, dentre todos os projetos que chegam, os que falam comigo nesse momento da minha vida, sobretudo como atriz. Como produtora, tenho mais atuação sobre o conteúdo e os talentos. A direção também só foi possível por não haver mais esse vínculo. Eu me sinto revigorada e estimulada com a chegada aos 63 anos, cada vez mais consciente de onde quero colocar minha energia e meu tempo.
F5 – De onde veio a vontade de dirigir?
Gloria Pires – Desde os primeiros anos de profissão eu queria entender os processos envolvidos na realização do que estava fazendo. Com o tempo, fui sentindo vontade de experimentar esse lugar e poder decidir em outras etapas da construção de uma história. A direção demanda olhar o todo, e esse olhar sempre esteve muito presente nas minhas experiências como atriz. Certamente quero continuar explorando esse caminho.
F5 – O que você considera seu maior legado?
Gloria Pires – Cada personagem me ensinou alguma coisa e, de certa maneira, todos foram agentes de alguma transformação em mim. A profissão também me ensinou que não existe um ponto de chegada. Você está sempre aprendendo, se reinventando e encontrando novas possibilidades. Mas acredito que meu legado será a atuação pelo cumprimento dos direitos trabalhistas dos atores e pelo reconhecimento dos direitos de intérprete dos artistas do audiovisual. Meu sonho realizado será ver essa realidade acontecendo.
F5 – Como você lida com o etarismo?
Gloria Pires – O etarismo existe e precisamos falar sobre ele, porque vem de uma ideia muito limitada do que significa envelhecer. Eu não me sinto definida pela idade. A idade não determina minha capacidade de desejar, aprender, trabalhar ou começar alguma coisa nova.
F5 – O que significa envelhecer para você?
Gloria Pires – Continuar me colocando em movimento é uma forma de quebrar estereótipos. Depois dos 60, você não deixa de ter desejos, projetos, curiosidades e capacidade de transformação. Pelo contrário, é libertador saber quem você é e o que realmente faz sentido para você.
F5 – Sua relação com a vaidade mudou?
Gloria Pires – É uma vaidade diferente. A juventude, para mim, foi uma grande roubada! Havia muita insegurança e exigências de corresponder a padrões. Com o tempo, fui entendendo que minhas dificuldades estavam justamente em tentar a aprovação alheia. Virar essa chave foi fundamental para a minha felicidade.
F5 – E em relação à vaidade estética? Até que ponto você se preocupa com isso?
Gloria Pires – Gosto de me cuidar, de me sentir bem, de estar bonita, mas isso não significa querer apagar o tempo. O envelhecimento é parte da vida e prefiro vivê-lo com consciência e respeito por mim mesma. Hoje me interessa muito mais estar bem do que parecer alguma coisa.
F5 – Você está casada há 38 anos com Orlando Morais. A que você atribui essa união tão longeva?
Gloria Pires – Uma relação longa é feita de muitas coisas: amor, respeito, admiração, companheirismo e, principalmente, disposição para compreender que as pessoas mudam. Nós mudamos muito ao longo desses anos, individualmente e como casal.
F5 – Como manter a individualidade dentro do casamento?
Gloria Pires – Acho importante permitir que o outro continue sendo uma pessoa inteira, com seus desejos, seus projetos e sua individualidade. Casamento não é sobre duas pessoas permanecerem exatamente iguais, mas sobre aprender a caminhar juntas enquanto cada uma também continua se transformando. E, claro, existe muito diálogo, humor e uma boa dose de paciência.
F5 – O que a maternidade ensinou a você?
Gloria Pires – A maternidade é um exercício permanente de aprender a soltar. Tive praticamente quatro filhos únicos, pela distância entre eles, e para cada um fui uma mãe diferente de alguma forma. Desde a primeira experiência, com Cleo, confiava que orientar com base na verdade seria um bom norte para criar minha filha.
F5 – Foi difícil respeitar escolhas diferentes das suas?
Gloria Pires – O tempo provou que eu estava certa em confiar e permitir que eles fizessem as próprias escolhas, inclusive algumas com as quais eu não concordava. Cada filho tem uma personalidade, uma trajetória e uma maneira de enxergar o mundo. Não existe uma fórmula única. O vínculo é fundamental, assim como a disponibilidade para ouvir e o respeito pela individualidade.
F5 – Você também se tornou empreendedora. O que essa atividade representa hoje?
Gloria Pires – Há três anos criei uma linha de cosméticos veganos, a Bemgloria, produzida em Manaus a partir de insumos amazônicos, veganos e sustentáveis. Outros dois pilares importantes da marca são a economia circular e a acessibilidade, questões muito importantes para mim como artista e como ser humano.
F5 – O que ainda te move, te entusiasma?
Gloria Pires – A curiosidade me move sempre. É o combustível para a vida. Tenho vontade de aprender, conhecer, experimentar, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Estar aberta ao que aparece no caminho, o feliz acaso.
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