Destaques do Dia Maringa Policia

O Brasil se descobriu, diz Maria Fernanda Cândido sobre momento na cultura

O Brasil se descobriu, diz Maria Fernanda Cândido sobre momento na cultura

GRAMADO, RS (FOLHAPRESS) – Maria Fernanda Cândido precisa do teatro mais do que os palcos precisam dela. É o que diz após ser coroada com o Kikito de Cristal no Festival de Gramado, um dos eventos mais importantes para o cinema do país. A láurea vem depois da atriz aumentar o seu prestígio internacional com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, e encarnar Clarice Lispector em Paris.

Ela dispensa pausas. Enquanto grava o próximo filme de Luiz Fernando Carvalho, “Objetos Perdidos”, deve subir novamente aos palcos brasileiros em outubro, para encenar a última peça do renomado dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. “Quando Despertamos Entre os Mortos”.

Apesar do reconhecimento no cinema, Cândido não consegue ficar longe dos palcos. “O teatro me alimenta. Você recebe mais do que dá do público. O cinema tem outra radicalidade, trata-se de segundos que vão ficar registrados para a eternidade. Já o teatro é efêmero. Se repete todas as noites e nunca será igual”, diz ela, em entrevista, em um hotel de ares campestres. Com a habitual elegância altiva e um vestido preto de saia rodada, a atriz se preparava para prensar o Kikito de Cristal dentro de algumas horas.

“É uma sina. Se você faz muito bem a peça hoje, pensa ‘meu deus, vou precisar repetir amanhã. E amanhã, o que eu vou fazer?’. E quando você faz a peça mal, por outro lado, sabe que vai ter o amanhã”, reflete. Quando questionada se, de certa forma, atuar ajuda a lidar com as próprias angústias e emoções, ela não hesita. “É um salto no precipício.”

E, ainda assim, Cândido teve tempo para se acostumar. Aos 52, ela subiu ao palco pela primeira vez aos 23 anos, em “Anchieta – Nossa História”, trabalho que marcou sua transição da carreira de modelo para a de atriz. Logo foi cooptada para a televisão, onde alcançou o sucesso em 1999, ao encarnar a bela italiana Paola de “Terra Nostra”, de Benedito Ruy Barbosa.

A beleza da atriz foi comparada a de Sophia Loren, símbolo de beleza feminina na época. Em uma indústria que, por vezes, limita reduz o talento de mulheres a sua aparência física, Cândido conta que manteve firme a convicção sobre o próprio ofício. “A questão da beleza nunca se misturou muito a isso”, diz.

Na linha de declarações de artistas como Fernanda Torres e Demi Moore, ela conta que a maturidade trouxe mais confiança. “Você diminuiu suas expectativas e entende que o mundo independe de você. Essa consciência é importante porque você deixa de querer controlar as coisas e ter expectativas muito altas em relação não só a você, mas também a quem te cerca.”

Apesar do gosto por trabalhos de veia mais artística e intelectual, Cândido mantém uma carreira profícua nas telinhas. “A televisão faz parte do dia a dia do povo brasileiro. É o nosso canal com o nosso povo”, diz. E, ainda assim, um de seus principais papéis na telinha gerou intenso debate em torno de uma questão social pungente. Ela deu vida a Joyce em “A Força do Querer”, em 2017, socialite que não aceitava o filho transgênero, interpretado por Carol Duarte.

Um ano depois, embarcou para a Itália, onde gravou “O Traidor”, filme de Marco Bellocchio, um dos cineastas contemporâneos mais celebrados daquele país. E, em 2022, foi recrutada para viver a bruxa Vicência na franquia “Harry Potter”.

“Um filme com um orçamento de milhões, a quantidade de recursos técnicos e equipamentos chamava a atenção. Mas, apesar de toda a tecnologia, o que precisava acontecer dependia única e exclusivamente de um jogo teatral muito simples. Eu precisava contracenar com um animal que não existia, que não estava, e eu dependia absolutamente da minha imaginação”, lembra. “Apesar de todos os recursos, você precisa de algo muito básico dentro do nosso ofício: a capacidade de imaginar e de brincar.”

É essa essência que guia Cândido na adaptação de obras literárias em linguagem visual, algo que ela tem feito desde o início da carreira. Nos anos 2000, levou aos palcos José Saramago, e às telas Machado de Assis –com o filme “Dom” e a minissérie “Capitu”, de Luiz Fernando Carvalho, nos quais deu vida à jovem com olhos de cigana.

A parceria com Carvalho se repetiu em 2024 com “A Paixão Segundo G.H.”, longa que adapta o célebre romance de Clarice Lispector. A escritora se tornou quase uma obsessão para Cândido, que dois anos depois a encarnou com um texto totalmente em francês, em Paris, na peça “Balda Acima do Abismo”.

Cândido, que já trabalha fora do Brasil há alguns anos, admite que o interesse sobre produções nacionais após “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar, e “O Agente Secreto”, é inédito.

“É como se o mundo tivesse voltado os olhos para o Brasil. O Brasil começa a descobrir algo que a Coreia, por exemplo, já descobriu há algum tempo, que a cultura é um um fortíssimo instrumento de poder dentro da geopolítica do mundo”, diz. “Nós, por exemplo, somos consumidores da cultura americana há muitas décadas, e isso é uma arma, que acabou entrando no nosso país e nos moldando.”

Mais do que o reconhecimento externo, porém, Cândido comemora o que considera uma epifania do Brasil diante da própria cultura. Um pouco como a experimentada por G.H. no livro de Clarice, após esmagar uma barata e, a partir daí, a leva a questionar sua própria identidade e, por fim, viver uma espécie de comunhão com o mundo. “O Brasil se descobriu. Nós é que estamos valorizando a nossa produção e percebendo essa força, e esse movimento gera o olhar do outro sobre nós.”

Leia Também: Bruna Lombardi conta por que deixou novelas no auge da fama para criar o filho