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EUA voltam a bombardear Pacífico após dois meses de trégua e em meio a ofensiva retórica

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DANIELA ARCANJO
BUENOS AIRES, PE (FOLHAPRESS) – Após dois meses de aparente trégua em operações na América do Sul, os Estados Unidos retomaram os ataques a lanchas que supostamente carregam drogas nas águas da região, matando duas pessoas em uma embarcação no oceano Pacífico.

O modus operandi não mudou: na segunda-feira (24), o Comando Sul dos EUA divulgou, sem mostrar qualquer evidência, que havia feito “um ataque cinético letal contra uma embarcação que operava discretamente em rotas de narcotráfico estabelecidas no Pacífico Oriental”.

“A operação resultou na morte de dois narcoterroristas”, escreveu a unidade em sua conta no X, em uma mensagem acompanhada de um vídeo da suposta operação, semelhante aos outros mais de 60 ataques que já mataram ao menos 220 pessoas até agora: uma lancha em movimento sendo atingida por um projétil e explodindo em chamas.

“Deixe-me ser claro: não permitiremos que narcoterroristas operem impunemente no hemisfério ocidental nem que seu veneno mortal chegue às comunidades americanas. Esta operação é uma demonstração poderosa de nossa precisão letal, capacidade esmagadora e determinação absoluta em proteger o território dos EUA”, afirmou o general Francis Donovan, responsável pelo Comando Sul.

O ataque teria ocorrido no domingo (23), mais de dois meses após 21 de junho, quando a última ofensiva do tipo havia ocorrido -ou sido anunciada. A operação de junho matou duas pessoas acusadas pelos EUA de serem narcotraficantes, enquanto outras seis que estavam na embarcação sobreviveram ao míssil americano.

Naquele dia, o ultradireitista Abelardo de la Espriella era eleito presidente da Colômbia, marco de uma guinada ideológica na América do Sul que colocou aliados de Donald Trump na Presidência de diversos países.

A rota marítima não é a principal via de tráfico para os EUA, e a quantidade de fentanil que passa pelo Caribe, segundo os especialistas, é irrisória -o opioide é responsável por uma grave crise de saúde pública em cidades americanas, razão pela qual frases como a do general Donovan, que citou um “veneno mortal” nos EUA ao falar do ataque, podem reverberar tanto no país.

A ofensiva começou em setembro justamente como uma forma de pressionar adversários do republicano na região, sendo o principal deles Nicolás Maduro, atualmente preso em Nova York após ser capturado pelos EUA em Caracas no começo do ano.

Até o final de outubro do ano passado, todos os ataques haviam ocorrido no Caribe, perto da Venezuela. Na época, Washington até mesmo enviou o USS Gerald Ford, o maior porta-aviões do mundo, para as proximidades da costa do país, o que fez Maduro colocar suas tropas em alerta.

Após a captura do ditador, houve uma pausa de três semanas nos ataques, e, desde então, a frequência das operações caiu. No primeiro semestre, um dos principais adversários de Trump na região, Gustavo Petro, ainda estava no poder, e o republicano chegou a afirmar que era “uma boa ideia” fazer com o colombiano o que os EUA haviam feito com Maduro.

Desde então, a região se tornou muito mais aberta às pretensões de Trump. Em março, a Casa Branca lançou o “Escudo das Américas”, uma iniciativa que reuniu líderes latino-americanos alinhados às suas pautas de direita para, segundo o que foi anunciado, combater o tráfico de drogas.

No mesmo mês, os EUA anunciaram uma parceria com Equador para combater o que chamam de organizações terroristas. “Realizaremos operações conjuntas com nossos aliados na região, incluindo os EUA. A segurança dos equatorianos é nossa prioridade e lutaremos para alcançar a paz em todos os cantos do país”, afirmou o presidente Daniel Noboa na ocasião.

Até mesmo o regime da Venezuela, que mantém uma retórica anti-imperialista, embora sob controle dos EUA, tem aceitado operações dos EUA em seu território. Em junho, o Comando Sul dos EUA matou Niño Guerrero, líder da organização criminosa Tren de Aragua, no estado de Bolívar, no sudeste do país.

No começo do mês, a presidente do Peru eleita em junho com uma plataforma linha dura na segurança pública, Keiko Fujimori, afirmou ter comunicado o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre suas intenções de se juntar ao grupo.

Já Espriella, o presidente colombiano, mal assumiu e se reuniu com o secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, em agosto, para autorizar operações militares conjuntas com os EUA em solo colombiano.

O ataque de domingo mostra que apenas as parcerias não têm sido suficientes para Washington. No dia 12 de agosto, durante uma visita ao Panamá, Hegseth afirmou que pretende expandir as ofensivas para operações em terra.

“Assim como vocês viram com os ataques aos barcos de narcotráfico […], [haverá] o mesmo efeito em terra. E é por isso que estamos trabalhando com o Equador, com a Colômbia e com parceiros para levar a luta contra as organizações de narcotráfico até a terra”, afirmou.

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