ARTHUR GUIMARÃES DE OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) –
A abstenção e o voto útil ajudam a explicar a dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) no primeiro turno das eleições presidenciais, segundo especialistas ouvidos pela Folha.
No último domingo (4), o senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), obteve 47,03% dos votos, ante 45,16% do candidato à reeleição. Os dois vão disputar o segundo turno no próximo dia 25.
Análises feitas após os resultados se dividem entre atribuir a liderança de Flávio ao não comparecimento de eleitores, que neste ano bateu recorde, e à migração de votos de candidaturas alternativas para o nome do PL.
Para traçar uma comparação com as pesquisas, o cientista político Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), faz um cálculo dos votos recebidos por Flávio e Lula sobre o total do eleitorado apto.
Por esse critério, o senador obteve 35,34% (56.104.503 votos divididos pelo universo de 158.745.502 eleitores), enquanto o petista marcou 33,94% (correspondente a 53.879.538 votos recebidos).
Segundo ele, a operação se justifica pela dificuldade dos institutos em captar a abstenção. Além disso, as amostras são construídas para serem representativas do eleitorado. Logo, as parcelas de intenção de voto estão ligadas à proporção do total de aptos a votar.
Na pesquisa Datafolha da véspera, Lula aparecia com 42% das intenções em votos totais, ante 40% de Flávio.
Sob essa ótica, portanto, seria uma distância de 8,06 pontos percentuais em relação ao resultado da urna no caso do petista e de 4,66 pontos no do senador. “Lula perde quase o dobro, proporcionalmente, para abstenção”, afirma.
E os outros? “Boa parte dos votos que a terceira via perdeu na urna não foi para Flávio. Isso é interpretação ilusória. Esses votos foram [também] para abstenção”, diz Lavareda.
“Os eleitores do Lula não evaporaram. Tampouco foram para os outros, os alternativos. Para onde eles foram? Foram abduzidos? Não, eles foram para abstenção.”
O número de eleitores que não compareceram às urnas neste ano atingiu 33,5 milhões, conforme os dados divulgados, o equivalente a 21,08% do eleitorado.
As razões para não ir votar podem ser as mais diversas. Uma é a multa de valor irrisório pelo não comparecimento, apesar de o voto ser obrigatório no Brasil. Mas, entre os possíveis motivos, estão desde a dificuldade em se deslocar para a seção eleitoral até não ter com quem deixar os filhos no dia.
Fato é que, historicamente, no país, a abstenção está relacionada a níveis de escolaridade mais baixos, assim como a faixas de renda mais baixas, segmentos em que Lula aparecia em vantagem sobre Flávio nas pesquisas.
A tentativa de conter a abstenção, inclusive, foi uma das tônicas na reta final da campanha petista e voltou a ser uma das apostas do presidente para o segundo turno.
A diretora-geral do Datafolha, Luciana Chong, contesta, por outro lado, a tese de que a diferença entre pesquisas e urnas possa ser explicada principalmente pela abstenção. Ela cita, por exemplo, o filtro aplicado no questionário sobre pessoas que declaravam intenção de não ir votar.
Também lembra que houve abstenção maior no Sudeste do que no Nordeste: “Não dá para dizer que prejudicou só Lula, porque esse nível de abstenção acaba se distribuindo.”
Para ela, o que ajuda a explicar a vantagem de Flávio sobre Lula no primeiro turno é a migração de eleitores de candidatos alternativos. Chong afirma que as pesquisas já mostravam uma curva de crescimento do senador nas últimas rodadas, enquanto Lula aparecia estável.
A diferença da pesquisa Datafolha de sábado (3) para o percentual apurado nas urnas no domingo foi de cinco pontos no caso de Flávio. O levantamento mostrou o senador com 42% das intenções em votos válidos, calculados excluindo brancos, nulos e indecisos. O filho do ex-presidente obteve 47,03% nas urnas.
O saldo no caso de Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, foi de dois pontos, mas para baixo. O instituto aferiu intenção de voto no ex-governador de Goiás na véspera acima do que ele marcou nas urnas. O mesmo ocorreu com Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo): um ponto de diferença no caso de cada um. Isso poderia indicar que parte desses eleitores teria migrado para Flávio.
O economista Maurício Moura, fundador do instituto Idea, analisa o resultado das urnas sob as duas óticas. Para ele, o efeito da abstenção, concentrada em zonas eleitorais de menor renda e escolaridade, de fato, foi mais prejudicial ao PT do que à oposição. Na sua avaliação, a maior abstenção no Sudeste não teria alterado esse impacto.
Acrescente-se a isso o que Moura chama de “antipetismo de chegada”, o fenômeno de escolha do candidato com maior chance de derrotar o PT.
“Na reta final, a gente viu a desidratação dos outros candidatos, justamente por essa perspectiva de vitória do Flávio em relação à perspectiva que os outros ofereciam.”
Para o segundo turno, o fundador do Idea não espera uma mudança abrupta na taxa de abstenção. Mesmo que ela caia ou suba um pouco, seu prognóstico é de um índice semelhante ao do primeiro turno, ainda com impacto maior sobre Lula.
















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