SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Leonardo Miggiorin, 44, voltou a um universo que marcou sua trajetória, mas dessa vez por um caminho diferente. Após 22 anos de sua interpretação de Shao Lin em “Senhora do Destino” (Globo, 2004), o ator reencontra Aguinaldo Silva no teatro em “Almoço com a Estrela”, comédia ambientada na Lapa dos anos 1980 e dirigida por Maciel Silva.
Em cartaz na Casa de Artes SP até 22 de novembro, a montagem aborda diversidade, preconceito, liberdade de expressão e a vida de artistas da noite durante a ditadura militar. No palco, Miggiorin interpreta Vanusa de Mayer, personagem inspirada na atriz Rogéria (1943-2017).
O reencontro, segundo o ator, ganhou um tom mais afetivo quando Aguinaldo visitou o elenco durante a preparação do espetáculo. O autor passou uma tarde com os artistas, contando histórias sobre a Lapa que conheceu e sobre figuras que fazem parte do universo da peça. “Esquecemos que estávamos com um grande autor, e ele se tornou uma pessoa familiar por alguns momentos”, conta Miggiorin.
Para ele, a experiência fez desaparecer o nervosismo diante de uma referência profissional. A proximidade também ganhou um significado especial porque, na avaliação do ator, o próprio Aguinaldo está de alguma forma dentro da história que escreveu.
A nova personagem também representa uma espécie de contraponto ao Shao Lin, papel que permanece entre os trabalhos mais lembrados de Miggiorin. Agora, ele diz enxergar aquele papel como fundamental para sua formação, mas não como uma prisão profissional.
Se o antigo personagem era um jovem da periferia, com comportamento mais agressivo, Vanusa permite outro tipo de construção, com humor, acidez e deboche. A experiência, diz ele, reforçou uma liberdade que veio com a maturidade: “Hoje tenho uma distinção muito clara do que é minha vida artística e do que é minha vida pessoal. Eu transito com mais facilidade por qualquer papel.”
Essa liberdade também passa pela relação do ator com a própria masculinidade e pela forma como foi construindo sua identidade. Miggiorin lembra que cresceu em uma sociedade em que a performance masculina era constantemente avaliada e que, ainda jovem, teve medo de ser desvalorizado por sua sensibilidade e orientação sexual.
Como se tornou nacionalmente conhecido aos 17 anos, quando fez o Zezinho da minissérie “Presença de Anita” (Globo, 2001), viveu o início da carreira ao mesmo tempo em que ainda buscava compreender a si próprio. “Eu cresci escondendo isso, tirando isso da frente e não colocando em pauta”, lembra.
O processo, segundo ele, foi diferente dentro de casa. Embora reconheça divergências ideológicas, políticas e comportamentais com os pais, Miggiorin afirma que sempre se sentiu amado pela família. O pai, que é aviador e militar, inclusive, reagiu com bom humor ao vê-lo caracterizado como mulher para o espetáculo.
“Ele gargalhou me vendo de mulher e transitando por esse universo. A arte possibilitou sair de um lugar aprisionador”, avalia o artista, natural de Barbacena (MG).
Miggiorin não esconde que ainda está descobrindo quais são os efeitos profissionais de se mostrar de maneira mais aberta ao público. Ele afirma que no passado evitava confrontos por medo de rejeição e que hoje não aceita mais piadas ou brincadeiras que considere desrespeitosas.
“Não mereço e nunca mereci ouvir deboche. Mas, como tinha medo de rebater ou de ser como sou, eu fugia do embate. Agora não fujo mais”, afirma.
Para ele, a liberdade conquistada não significa abrir mão da possibilidade de interpretar personagens diversos. “Se não quiserem me dar um papel por conta disso, então não é para mim. Não estou mais disposto, aos 44 anos, a fingir ser outra pessoa para conseguir um papel, um salário ou aprovação.”
O ator também identifica uma mudança importante na maneira como encara a própria carreira. Depois de começar muito jovem e passar por televisão, teatro, cinema e streaming, ele diz ter abandonado a ideia de que precisava provar o tempo todo que merecia estar onde estava.
“Hoje a sensação é que não devo nada a ninguém, e que ninguém me deve nada. A Globo não me deve nada. Eu saí de um estado psicológico de vítima, que precisava se defender e provar que merecia, para um lugar em que eu sei que mereço trabalhar, existir, criar papéis e fazer minha arte.”
Essa maturidade chega acompanhada de uma nova frente de atuação. Formado em psicologia, Miggiorin diz ter se encontrado no teatro terapêutico e decidiu ampliar esse trabalho por meio de um instituto voltado à promoção de saúde e educação pela cultura.
A iniciativa será inaugurada com “Lê que Passa”, um projeto que ele dirige no Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, reunindo atores para apresentar gratuitamente obras exigidas em vestibulares. “Essa é uma fase nova na minha vida: promover essa função social do teatro como ferrame nta”, explica. Ao mesmo tempo, ele segue aberto a novos trabalhos e se diz pronto para qualquer desafio.
“Almoço com a Estrela”
Quando Sábados, às 20h; Domingos, às 18h
Onde No Teatro Casa de Artes (Rua Major Sertório, 476 – Vila Buarque)
Preço A partir de R$ 50
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