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Por Edson Calixto Junior
Precisamos falar sobre o Oscar. Sim, amigos. Pela primeira vez em quase um século de premiação, o Brasil aparece concorrendo em quatro categorias. Se até pouco tempo atrás uma única indicação já era motivo para euforia nacional — quase como gol aos 45 do segundo tempo — imagine disputar quatro estatuetas. E o melhor de tudo: com chances reais em pelo menos duas.
Para quem, como eu, acompanha essa cerimônia há mais de três décadas, trata-se de um feito histórico. No ano passado celebramos a vitória de “Ainda Estou Aqui”. Agora chega “O Agente Secreto”, mais um filme que revisita os temíveis anos de chumbo da ditadura militar. Seria essa a “receita” do Oscar? Vale lembrar que recentemente nossos hermanos levaram a estatueta de melhor filme internacional com “Argentina, 1985”, também profundamente político. Coincidência? Talvez. Ou talvez Hollywood esteja mesmo redescobrindo que memória histórica rende ótimas histórias — e alguns prêmios dourados.
Independentemente do resultado, já podemos comemorar. E confesso: minha torcida maior é pela baianidade magnética de Wagner Moura. Embora, sejamos justos, ele enfrente concorrentes de peso como Michael B. Jordan, Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet. Ou seja: é final de Copa.
E o que dizer dos filmes? Bem, com toda sinceridade, dois deles — na minha modesta opinião — superam “O Agente Secreto”. O favoritaço “Pecadores” é uma verdadeira salada cinematográfica: mistura terror, faroeste e musical, e ainda encontra espaço para a Ku Klux Klan e Al Capone na mesma história. Parece improvável… mas funciona. Acho impressionante como alguns roteiristas conseguem contar uma narrativa tão surreal de forma tão convincente que, não fossem os elementos sobrenaturais, quase acreditaríamos que aquilo aconteceu mesmo. As interpretações são impecáveis. E o filme prova, mais uma vez, que obras híbridas podem ser deliciosamente divertidas.
Se falei de “Pecadores” — recordista histórico com 16 indicações — preciso falar com ainda mais entusiasmo de “Uma Batalha Após a Outra”. Esse é o meu favorito. E, curiosamente, também é político. O enredo é forte, as cenas são de tirar o fôlego e a atuação de Sean Penn como coadjuvante é simplesmente extraordinária — daquelas em que você demora alguns minutos para perceber que é ele. Mais que um drama político, o filme conta a história de um pai profundamente preocupado com sua filha e disposto a tudo para protegê-la. Sublime.
Na fronteira entre o sublime e o trágico encontramos “Sonhos de Trem”. É impossível não se emocionar com a trajetória de um lenhador e sua luta para manter dignidade e identidade enquanto o “progresso” parece varrer histórias, culturas e até a natureza. É também o retrato de um homem simples tentando encontrar sentido em uma vida aparentemente ordinária. E talvez seja justamente isso que a torne tão extraordinária.
“Bugonia” foi outro que assisti com enorme expectativa. Afinal, Yorgos Lanthimos é uma espécie de Tarantino grego: perturbador, irreverente e frequentemente politicamente incorreto. Aqui ele brinca novamente com a ideia de uma realidade fora da “matrix”. A presença quase obrigatória de Emma Stone reforça a parceria criativa entre os dois. A trama parece saída de um filme adolescente dos anos 80 — dois nerds sequestram uma empresária porque acreditam que ela é uma extraterrestre — mas a forma como a história é contada transcende completamente essa premissa absurda. O resultado é um filme fascinante em todos os sentidos.
Já “Marty Supreme” acompanha a trajetória de um talentoso mesa-tenista estadunidense — também conhecido por seus defeitos de caráter. Marty Reisman era brilhante no esporte, mas, na linguagem brasileira, digamos que também era um verdadeiro “picareta”. Ainda assim, sua história é impressionante. E lembra muito aqueles craques do futebol que tinham talento de sobra dentro das quatro linhas, mas faziam questão de desperdiçar tudo fora delas. O filme acaba sendo quase uma lição para jovens atletas promissores: talento ajuda… mas caráter ajuda mais.
“F1” foi o primeiro que assisti. E posso afirmar: apesar de ser pura ficção, talvez seja a melhor obra que Hollywood já produziu sobre automobilismo. Nem é preciso ser fã da Fórmula 1 para se envolver com a história do piloto que sai da aposentadoria para tentar salvar uma equipe. Brad Pitt faz o que Brad Pitt sabe fazer — basicamente ser Brad Pitt — e funciona. Os efeitos visuais e o ronco dos motores são um espetáculo à parte. Confesso: foi o único que assisti duas vezes (a segunda com familiares igualmente apaixonados por velocidade).
Para falar de “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, preciso abrir um pequeno parêntese. Esse era o filme pelo qual eu tinha maior expectativa. Afinal, trata-se de um fragmento biográfico da vida de William Shakespeare — e biografias costumam estar entre meus gêneros favoritos. Quando se junta uma história real com o maior dramaturgo da literatura ocidental, espera-se naturalmente uma obra-prima. O filme é bom, intenso e provocador, com interpretações marcantes — Jessie Buckley está simplesmente fantástica. Mas, curiosamente, parece faltar algo. Ainda assim, como a Academia adora Shakespeare — e já premiou “Shakespeare Apaixonado” em 1999, num ano em que concorriam “O Resgate do Soldado Ryan” e “A Vida é Bela” — não seria surpresa se ele aparecesse forte na disputa.
No caso de “Valor Sentimental”, a sensação é semelhante. O filme tem excelente fotografia, boas atuações e uma direção competente. O enredo é interessante e dialoga com temas recorrentes em produções europeias premiadas. Ainda assim, parece faltar aquele elemento que transforma um bom filme em algo realmente inesquecível. É ótimo… mas talvez não seja suficiente para levar a estatueta.
Por fim, temos “Frankenstein”, sob a batuta de Guillermo del Toro. A história é clássica e já foi contada inúmeras vezes. Aqui há cenas fortes e grotescas — marca registrada do diretor — mas, no fundo, trata-se de uma versão elegante de algo que já conhecemos bem. O grande diferencial é justamente o olhar singular de Del Toro. E, convenhamos, às vezes isso já é mais do que suficiente.
No fim das contas, estamos diante de uma safra espetacular: filmes para todos os gostos e, sobretudo, para quem aprecia cinema de qualidade em suas muitas formas. E se o tão sonhado Oscar de melhor filme não vier para “O Agente Secreto”, que venha ao menos o de melhor filme internacional — embora eu também reconheça que o espanhol “Sirät” seja um concorrente fortíssimo.
Mas, no fundo, o Oscar é um pouco como o próprio cinema: mistura de arte, espetáculo, emoção e uma pitada generosa de imprevisibilidade. E enquanto as estatuetas aguardam silenciosas em suas vitrines douradas, milhões de espectadores pelo mundo seguram a respiração por alguns segundos… esperando ouvir o nome do vencedor.
Se for o Brasil, faremos história. Se não for, ainda assim teremos feito cinema.
E convenhamos: às vezes a maior vitória não está na estatueta… mas na história que ficou na tela — e no coração de quem assistiu.
EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou na Rádio CBN, Diário do Rio Doce e Rede Novo Tempo de Comunicação. Foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.
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