O quarto dia do julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e de Monique Medeiros pela morte do menino Henry Borel foi marcado por relatos de violência, abuso sexual e agressões contra crianças. Nesta quinta-feira (28), o 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro ouviu três testemunhas de acusação que mantiveram vínculos familiares com o ex-vereador e descreveram episódios que, segundo elas, ocorreram anos antes da morte de Henry.
O depoimento mais longo e impactante foi o da empresária Débora Mello Saraiva, ex-namorada de Jairinho. Ela afirmou ter sido vítima de agressões físicas, estupro e ameaças durante o relacionamento com o ex-vereador, que durou entre 2014 e 2020, em um histórico marcado por separações e reconciliações.
A pedido da testemunha, Jairinho deixou o plenário antes do início da oitiva. Monique Medeiros permaneceu no local durante todo o depoimento. A sessão também marcou o retorno do advogado Fabiano Lopes, responsável pela defesa de Jairinho, que havia se afastado do julgamento após sofrer um infarto no último sábado.
Durante o depoimento, Débora afirmou que só soube das agressões sofridas pelo filho após a ampla repercussão do caso Henry Borel, em 2021. Segundo ela, a criança reconheceu Jairinho durante uma reportagem exibida na televisão e decidiu contar o que teria acontecido.
“Ele chegou para mim e disse: ‘Mamãe, você sabe o que o Jairinho fez comigo?’. Foi quando começou a relatar tudo”, afirmou.
De acordo com a empresária, o menino contou que era impedido de gritar durante as agressões.
“Meu filho disse que Jairinho colocava papel e pano na boca dele para que ele não gritasse. Depois pisava na barriga dele e ria”, relatou.
Segundo o depoimento, a criança também afirmou que foi colocada dentro de um carro com um saco na cabeça enquanto Jairinho dirigia pelo estacionamento de um condomínio.
Outro episódio citado por Débora envolveu uma grave fratura sofrida pelo filho. Ela afirmou que o menino passou um período sozinho com Jairinho durante uma festa e retornou com fortes dores.
Inicialmente, segundo ela, o então vereador alegou que a criança havia se machucado ao descer do carro. No entanto, exames médicos apontaram uma fratura no fêmur, lesão que exigiu meses de recuperação e imobilização.
A ex-namorada também relatou episódios de violência sofridos por ela própria durante o relacionamento.
Segundo Débora, uma das situações mais graves ocorreu dentro de casa, quando estava com os filhos. Ela afirmou que teria sido dopada por Jairinho e acordado horas depois sentindo fortes dores.
“Ele me dopou naquele dia. Foi o mesmo dia em que me estuprou. Quando acordei, estava com dor. Ele riu e disse que eu tinha gritado igual a uma cachorra”, declarou.
Em um dos momentos mais emocionantes do depoimento, a testemunha contou que o filho teria tentado acordá-la durante o episódio.
“Meu filho disse que conseguiu sair do quarto e me sacudiu várias vezes, mas eu não respondia”, afirmou.
Débora também descreveu uma rotina de agressões físicas que, segundo ela, se repetia ao longo dos anos. Entre os episódios relatados estão chutes, enforcamentos, mordidas e ameaças de morte.
“Uma vez ele me deu um chute que quebrou um dos dedos do meu pé. Em outra discussão, me pegou pelo pescoço e me arrastou pelo jardim. Enquanto me arrastava, me mordeu três vezes na cabeça”, disse.
Segundo ela, as agressões eram seguidas por um comportamento aparentemente normal.
“Quando eu dizia que ele iria me matar, ele parava e mandava que fôssemos dormir. No dia seguinte agia como se nada tivesse acontecido. Eu tinha muito medo dele”, afirmou.
Antes de Débora, o júri ouviu a estudante de turismo Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, de 18 anos. Ela reafirmou ter sido vítima de agressões físicas praticadas por Jairinho durante a infância.
Kaylane contou que conheceu o ex-vereador quando tinha apenas três anos de idade, após o início do relacionamento dele com sua mãe, Natasha de Oliveira Machado. A relação durou cerca de sete anos.
Segundo a jovem, as agressões começaram nos anos finais da convivência familiar.
Na sequência, Natasha também prestou depoimento ao tribunal. Ela afirmou que só tomou conhecimento das agressões sofridas pela filha após o fim do relacionamento com Jairinho.
A testemunha explicou que não denunciou o caso anteriormente por medo da influência política exercida pelo ex-vereador e por seu pai, o Coronel Jairo, especialmente na região de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro.
O julgamento prossegue com a expectativa de novos depoimentos e integra a fase de instrução do processo que apura a morte de Henry Borel, ocorrida em março de 2021. Jairinho e Monique Medeiros respondem pelas acusações relacionadas ao caso e acompanham o andamento do júri no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
















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