Mesmo sendo um mito sem qualquer comprovação, a crença de que gatos pretos dão azar ainda dificulta a adoção desses animais — e preocupa ONGs, protetores e tutores em Maringá. Júlia Tresoldi, uma tutora de Mandaguaçu, vivenciou este cenário.
Júlia encontrou um gato preto abandonado e não podia ficar com ele, porque sua outra gata não se adaptava. Ela já passou pela situação algumas vezes e sempre conseguiu encontrar um lar para os animais. Desta vez, porém, se surpreendeu com a reação ao divulgar o caso nas redes sociais. Segundo ela, algumas pessoas comentavam que não queriam adotar o gato porque ele era “preto” e “dava azar”. A indignação foi tão grande que Tresoldi até brincou com a situação: “As pessoas têm uma vida horrível por culpa delas e ainda querem colocar a culpa nos gatos”.
Abandono de gatos pretos no Brasil
O caso não foi isolado. Uma pesquisa da Cobasi Cuida, realizada com 54 ONGs e protetores, apontou que felinos de pelagem preta representam 27% dos animais resgatados. Em seguida aparecem os manchados (24,6%), brancos (16%) e cinzas (14,2%). Além disso, o estudo mostrou que cerca de 68% das ONGs já receberam relatos ou indícios de abandono de gatos pretos associados a superstições ou crenças pessoais.
Mito da sexta-feira 13
Giovana Verri, voluntária da Associação Maringaense de Ajuda aos Animais Resgatados (ONG AAMAR), afirma que a superstição envolvendo “gatos pretos na sexta-feira 13” faz com que os cuidados sejam redobrados quando as datas coincidem. “A questão dos gatos pretos realmente é um assunto delicado. Na semana em que cai a sexta-feira 13, a gente evita doar qualquer gato preto, porque muita gente adota para fazer maldade”, relata.
Gabriel Valesi já teve três gatos pretos e, segundo ele, todos eram carinhosos e dóceis.
Ele afirma que sua mãe costuma esconder os animais durante a sexta-feira 13 por medo de que sejam capturados e maltratados. “Mesmo tendo grade, a gente protege o máximo possível, porque as pessoas pegam o gato até dentro de casa”, afirma.
Maus-tratos contra animais
Em Maringá, a Lei Municipal nº 10.467/2017 prevê punições para casos de maus-tratos contra animais. A legislação considera infrações práticas que atentem contra a saúde e o bem-estar dos animais, como abandono, agressões, privação de alimento e água, manutenção em locais inadequados e a falta de atendimento veterinário quando necessário.
A norma prevê multa de R$ 2 mil por animal vítima de maus-tratos. Em casos que resultem na morte do animal, o valor sobe para R$ 10 mil. Além das penalidades administrativas, casos de maus-tratos contra cães e gatos também podem resultar em pena de dois a cinco anos de prisão, conforme a Lei Federal nº 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão.
Como denunciar
As denúncias podem ser feitas pela Ouvidoria Municipal, por meio do telefone 156, ou pelo sistema online da Prefeitura de Maringá. A orientação é reunir o máximo possível de provas, como fotos e vídeos. Em Maringá, a Secretaria de Proteção e Bem-Estar Animal (SEBEA) é responsável pelo acompanhamento e fiscalização das ocorrências.
Júlia decidiu ficar com o gatinho e pretende levá-lo para sua nova casa quando se casar. Ela também conta que o animal é extremamente carinhoso e dócil, e lamenta que muitas pessoas deixem de conhecer o carinho desses animais por conta da superstição.
















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