FLÁVIO FERREIRA E PEDRO S. TEIXEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Dezenas de perfis no Instagram exibem vídeos de sexo explícito e outros conteúdos pornográficos há pelo menos três meses. As publicações burlam os sistemas de segurança da rede social e já acumulam milhões de visualizações.
O material é recomendado na aba de vídeos curtos Reels, cujo alcance é ampliado por padrão pelo algoritmo, mesmo que as contas com conteúdo adulto não sejam seguidas pelos usuários. Os posts ainda sugerem links para sites suspeitos que podem resultar na invasão de dispositivos e no roubo de dados pessoais.
Em alguns casos, as publicações estão acessíveis a menores de 18 anos, o que contraria as leis de proteção a crianças e adolescentes na internet.
Procurada, a Meta diz que removeu de forma “proativa” 96% das publicações que violavam suas políticas contra exploração sexual infantil e 92% das publicações com nudez entre outubro de 2025 e dezembro de 2025 (período do relatório mais recente). Ou seja, tirou do ar antes de receber denúncias dos usuários.
As publicações indicadas pela reportagem foram encaminhadas para análise do time de moderação da empresa e removidas na sequência, segundo a assessoria da big tech.
“A Meta não possui qualquer interesse na manutenção de conteúdo que viole as suas políticas, como é o caso de conteúdo sexualmente explícito ou envolvendo nudez. Pelo contrário. A Meta emprega amplos esforços, incluindo o investimento em tecnologia, para mitigar os riscos de que tais conteúdos circulem em suas plataformas”, disse a empresa em nota.
De acordo com legislação conhecida como ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), aprovada no ano passado, as plataformas devem “oferecer sistemas e processos projetados para impedir que crianças e adolescentes encontrem, por meio do produto ou serviço, conteúdos ilegais e pornográficos”.
“A infração estaria caracterizada se medidas razoáveis não estiverem sendo tomadas. Ficando comprovado que houve falha no cumprimento desse dever, a conduta seria passível de punição”, disse a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) em nota.
Além de vídeos com sexo explícito, dezenas de perfis mostram cenas de nudez que também podem ser enquadradas como inapropriadas para menores de 18 anos.
Embora não exista uma definição clara do que é pornografia na legislação brasileira, os tribunais têm entendido que conteúdos com conotação sexual, como imagens de órgãos genitais em contextos para promover a excitação, também podem ser inseridos na categoria.
É o algoritmo de recomendações da Meta, cujo objetivo é ampliar o tempo de permanência na tela, que leva o público aos vídeos de sexo explícito. O caminho começa na linha do tempo (feed) do Instagram, no qual o material chega sem que as contas de origem sejam seguidas pelos usuários.
No feed, são oferecidos vídeos de mulheres vestidas com roupas justas e decotadas. Depois de clicar nesses conteúdos, os usuários são direcionados para a ferramenta de vídeos curtos Reels e, ao rolarem a tela, passam a visualizar os trechos com sexo explícito e outros tipos de pornografia, como a exibição de órgãos genitais em contextos sexualizados.
As publicações violam também as normas contra nudez e atividade sexual de adultos do Instagram, conhecido por adotar uma política restritiva no tema.
A plataforma, por exemplo, remove imagens de mulheres indígenas com seios expostos, como mostra uma decisão recente do Oversight Board, comitê independente que revisa as decisões moderadoras da Meta.
A rede social identifica violações às suas normas por meio de ferramentas automatizadas, que estão sujeitas a erros. O presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, já afirmou que o sistema possui maior precisão na identificação de infrações graves, como imagens explícitas e divulgação de crimes.
As contas verificadas pela reportagem conseguem burlar as ferramentas de detecção. As imagens circulam em preto e branco e utilizam um padrão de colagem, sobrepondo trechos pornográficos a mosaicos de fotos comuns. Há casos em que o material está no ar há mais de três meses. O material explícito não tem tarja ou pixelização das partes sensíveis.
Um dos perfis com um nome feminino típico da Turquia utiliza colagem de material explícito sobre mosaicos de fotos cotidianas em preto e branco. A conta, que direciona internautas a um link malicioso pelos stories, acumula mais de 1,4 milhão de visualizações desde o início de junho.
Segundo o professor de inteligência artificial da UFG (Universidade Federal de Goiás) Arlindo Galvão, a sobreposição de várias camadas de vídeo é uma das chaves para desorientar os mecanismos da Meta. “Conteúdo explícito é fácil de detectar se existe uma só mídia, mas quando há múltiplas mídias gera uma confusão”, afirma.
Os modelos de IA usados em moderação de conteúdo não veem a imagem como uma pessoa, mas sim decodificam os pixels em vários códigos numéricos para depois buscar padrões. A sobreposição de vídeos quebra os padrões usuais, diz Galvão.
Em outro exemplo, uma conta falsa divulgava vídeos explícitos sob uma camada de labirintos que piscava sobre a tela.
A trilha do tempo (timeline) de um vídeo, que é uma sequência de imagens, também permite manipulações para desorientar o filtro. Uma das publicações exibia uma jovem bebendo café antes de exibir um único quadro de outra mulher nua.
“Nesses casos, também há um incentivo para o usuário pausar o vídeo ou revê-lo para buscar o trecho explícito, numa estratégia para aumentar o engajamento”, afirma Galvão.
Há ainda as contas que sobrecarregam o algoritmo com a quantidade de posts. Um perfil falso, por exemplo, fez 14 publicações explícitas em um intervalo de 37 minutos para promover uma página na plataforma OnlyFans. Caso a conta seja banida, é fácil criar outra com dados vazados de terceiros.
Apesar dos bloqueios, as cenas pornográficas continuam acessíveis inclusive em contas simuladas de menores de idade, servindo como isca para direcionar o público a páginas adultas falsas -um estrato da população vulnerável a apelos visuais e protegido de forma prioritária pela lei.
Em testes realizados pela Folha com dez perfis que divulgam o material, sete exibiram o conteúdo explícito para uma conta cuja idade cadastrada era de 16 anos -mesmo com todas as ferramentas de proteção ativas. Outros três perfis mostraram um aviso informando que a conta possuía restrição para menores e dependia de autorização dos responsáveis para ser visualizada.
Sobre a exposição de adolescentes, a Meta afirmou em nota que, desde o último mês de março, limita de forma automática o acesso de usuários com idade de 13 a 17 anos a conteúdo sensível. “Uma pesquisa recente realizada por um terceiro nos Estados Unidos indicou que as contas de adolescente do Instagram na configuração padrão visualizaram 68% menos ‘conteúdo para usuários mais maduros’ do que na experiência para adolescentes de um concorrente analisado”, declarou a empresa.
Profissionais de tecnologia da informação consultados pela reportagem identificaram vírus de computador (malwares) nos links associados às publicações.
“É sempre uma corrida de gato e rato: o detector se aperfeiçoa, e quem quer burlar se adapta para escapar”, afirma o professor de ciência da computação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Anderson Tavares.
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