IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Otan realizou uma manobra militar de surpresa perto da região russa de Kaliningrado, um exclave entre a Polônia e a Lituânia, causando alarme na Rússia. O mar Báltico é um dos principais pontos de atrito entre o país de Vladimir Putin e a aliança militar liderada pelos Estados Unidos.
Foram mobilizados cerca de 25 aeronaves, segundo o que foi possível acompanhar em sites de monitoramento de tráfego aéreo, ao longo da terça-feira (18). A frota incluía aviões de caça dos EUA e da Noruega e uma variedade de aeronaves de vigilância e reabastecimento aéreo de diversos países da Otan.
Chamou a atenção a presença de helicópteros de ataque AH-64 Apache americanos, arma para incursões contra alvos costeiros que foi amplamente usada contra posições do Irã no estreito de Hormuz ao longo da atual guerra no Oriente Médio.
Ao site ucraniano Militarnii, a Otan informou que a ação teve como função treinar capacidades operacionais defensivas na região, mas não comentou o fato de que ela não foi anunciada previamente.
Isso é praxe em exercícios de maior porte em qualquer área conflituosa do mundo, visando evitar identificações incorretas de ataques e até choques de aeronaves no ar.
A falta de aviso gerou apreensão em Moscou. Segundo uma pessoa próxima do Ministério da Defesa ouvida pela Folha, a percepção é de que a Otan estava testando capacidades de interceptação eletrônica da Rússia baseadas em Kaliningrado.
O exclave é conhecido por sediar sistemas de comunicação que costumam interferir nas capacidades de orientação de aviões em toda a região do Báltico. Além disso, de lá são operados sistemas antiaéreos de longo alcance S-400 e mísseis balísticos Iskander-M, além de modelos costeiros.
Os Iskander, em uso na Ucrânia, podem atingir de lá cidades próximas a Berlim com ogivas nucleares. Os EUA já revelaram planos para tomar Kaliningrado.
O episódio eleva em mais um grau a tensão já exacerbada no Báltico, onde a Otan vê três membros, Lituânia, Letônia e Estônia, como vulneráveis a ataques russos. Os lituanos já até mudaram a lei para permitir o posicionamento de armas nucleares em seu solo.
A percepção ficou aguda após a invasão da Ucrânia em 2022, que levou a dois Estados nórdicos vizinhos, Suécia e Finlândia, a abandonar a neutralidade histórica e aderir à Otan. Com isso, todas as margens do Báltico, com a óbvia exceção russa, integram hoje as fronteiras da aliança.
Os episódios na região se sucedem. No mar, aviões franceses já ficaram na mira de ataque de radares russos, uma patrulha instalada pela Otan busca coibir ações contra cabos submarinos e o sistema de oleodutos de Moscou Nord Stream foi explodido em 2022.
Em terra, as violações de espaço aéreo por drones vindos da área de conflito da Ucrânia ora apontam para ações deliberadas, ora para ocorrências acidentais. Os russos negam tal intenção e dizem temer ataques com drones do rival contrabandeados para Estados Bálticos.
A desconfiança é tal que o trânsito pela região de uma fragata russa equipada com mísseis hipersônicos, a Almirante Kasatonov, gerou manchetes na Alemanha e no Reino Unido nesta semana, que alertavam para o risco de ataques.
Não era para tanto, mas o contexto é de beligerância: a Almirante Kasatonov escoltou pela região um navio com gás russo, visando dissuadir quaisquer tentativas europeias de abordar a embarcação, como já ocorreu antes com navios sob sanção econômica.
Nesta semana, Putin disse que a Rússia iria aplicar a mesma regra com navios europeus caso haja alguma abordagem, elevando o temor de um conflito naval no Báltico.
A Otan vem alertando para a possibilidade de um confronto com os russos antes do fim da década, preocupação compartilhada inclusive por integrantes da elite em Moscou, cientes de que o atoleiro da Ucrânia cobra preço político alto de Putin.
Com isso, o continente vem liderando uma grande expansão de seus gastos militares, até para tentar driblar o afastamento promovido por Donald Trump, que acusa os parceiros de depender dos EUA. Tudo isso é chamado de russofobia pelo Kremlin.
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