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“Flávio esquema pandemia”: o que há por trás dessa busca no Google?

TCU arquiva representação de Flávio sobre ex-nora de Lula e diz que faltam 'indícios mínimos'

A expressão “Flávio esquema pandemia” ganhou destaque nas pesquisas do Google depois que o deputado federal André Janones (Rede-MG) pediu aos integrantes do Exército do Lula que procurassem por “Flávio Bolsonaro esquema pandemia”. A orientação, divulgada na quarta-feira (21), reacendeu acusações contra o senador e candidato à Presidência da República envolvendo a administração de hospitais federais do Rio de Janeiro durante o governo de Jair Bolsonaro.

As denúncias incluem contratos com suspeitas de superfaturamento, indicações políticas para cargos de direção e centenas de leitos hospitalares fechados ou sem condições de funcionamento. Uma investigação da Agência Pública, publicada em 1º de outubro, reuniu documentos, auditorias e depoimentos sobre a influência atribuída a Flávio Bolsonaro na rede federal de saúde.

Em uma das declarações mais contundentes, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) acusou Flávio de comandar um grupo que controlava indicações políticas e decisões sobre licitações.

“Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou Otoni, em declaração reproduzida pela Agência Pública.

O parlamentar, que atualmente apoia Lula, fez a acusação em março deste ano. A afirmação não representa uma conclusão judicial sobre a responsabilidade do senador.

Ministro da Saúde chamou Flávio de “poderoso chefão”

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), também acusou Flávio Bolsonaro de exercer controle político sobre os hospitais federais do Rio durante o governo de seu pai.

Em entrevista à Agência Pública, Padilha afirmou:

“Era, de fato, o poderoso chefão dos hospitais federais.”

Segundo o ministro, as indicações para cargos de direção e decisões envolvendo contratos passavam pelo senador. Padilha também denunciou a existência de funcionários fantasmas em contratos de terceirização e atribuiu ao grupo político de Flávio um esquema de ocupação de cargos.

A investigação da Agência Pública ouviu gestores, ex-gestores, servidores e integrantes de órgãos de controle. Os relatos apontam que Flávio, embora não ocupasse cargo no governo federal, teria exercido influência sobre nomeações e decisões administrativas entre 2019 e 2022.

Procurado pela Agência Pública, o senador não respondeu aos pedidos de entrevista encaminhados à sua assessoria.

Hospitais tinham leitos fechados durante a pandemia

Um dos dados mais graves está no relatório final da CPI da Covid, aprovado em outubro de 2021.

Segundo a comissão, aproximadamente 30% dos leitos clínicos e de terapia intensiva dos hospitais e institutos federais do Rio de Janeiro permaneceram fechados durante a pandemia, embora parte dessa estrutura pudesse ter sido disponibilizada para atender pacientes.

A situação foi novamente documentada em abril de 2023, quando uma fiscalização da Câmara dos Deputados encontrou 735 leitos inoperantes ou bloqueados na rede federal da capital fluminense.

Os parlamentares também identificaram alas fechadas, obras paralisadas, equipamentos sem utilização e problemas na assistência.

No Hospital Federal de Bonsucesso, um incêndio ocorrido durante a pandemia matou quatro pacientes internados com Covid-19. A unidade também enfrentava falta de profissionais e restrições no funcionamento de serviços especializados.

O deputado Daniel Soranz (PSD-RJ), médico sanitarista e ex-secretário municipal de Saúde do Rio, criticou a influência atribuída ao senador.

“Flávio teve uma influência nefasta para os hospitais federais, foi algo terrível”, declarou à Agência Pública.

Auditorias identificaram R$ 69 milhões em sobrepreço

A investigação também revelou números sobre contratos e despesas dos hospitais.

Um diagnóstico do Ministério da Saúde, elaborado em fevereiro de 2023, apontou que 72% dos recursos mensais das seis unidades federais do Rio eram consumidos com despesas de custeio, como limpeza, vigilância e serviços terceirizados.

Em uma licitação de materiais para cirurgia vascular do Hospital dos Servidores, o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou aproximadamente R$ 69 milhões em preços superdimensionados, o equivalente a 57% do valor estimado.

Outra análise, envolvendo a compra de medicamentos contra o câncer, encontrou R$ 18,1 milhões em sobrepreço estimado.

As irregularidades foram identificadas em auditorias preventivas, antes da assinatura dos respectivos contratos. Portanto, esses valores não representam necessariamente dinheiro efetivamente desviado.

A Agência Pública também identificou relações entre empresas contratadas pelos hospitais e pessoas ligadas a políticos do Rio de Janeiro.

Em agosto de 2026, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu ao Supremo Tribunal Federal que investigasse a possível participação de Flávio Bolsonaro nas irregularidades relacionadas aos hospitais federais.

Flávio Bolsonaro também aparece em inquérito da CPI da Covid

As denúncias sobre os hospitais não são o único episódio que relaciona o nome do senador às investigações sobre a pandemia.

Em setembro de 2025, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para apurar fatos apresentados no relatório final da CPI da Covid.

Flávio Bolsonaro está entre os agentes públicos mencionados nas conclusões da comissão.

Em 2021, a CPI havia recomendado seu indiciamento por incitação ao crime, em razão de condutas relacionadas ao enfrentamento da pandemia.

Ao autorizar a investigação, Dino destacou que a CPI havia identificado indícios de crimes contra a administração pública, incluindo fraudes em licitações, superfaturamento e desvio de recursos.

A decisão, entretanto, não atribuiu individualmente todos esses crimes a Flávio Bolsonaro. A abertura do inquérito também não equivale a uma denúncia formal ou condenação.

Reportagem aponta festa com empresários ligados à Covaxin

Uma reportagem da revista piauí, divulgada em 21 de outubro, trouxe novas alegações envolvendo o senador e empresários ligados à Precisa Medicamentos, empresa que participou das negociações para a compra da vacina indiana Covaxin pelo governo federal.

Segundo a publicação, Flávio Bolsonaro participou de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, organizada pelos empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano.

A reportagem relata a presença de lobistas e mulheres contratadas para o evento, além da suposta entrega de um relógio Rolex ao senador.

A revista também associa o encontro à tentativa dos empresários de ampliar seus contatos com integrantes do governo federal.

O contrato da Covaxin foi investigado pela CPI da Covid e acabou suspenso em meio a suspeitas de irregularidades.

A participação em um encontro com empresários, por si só, não comprova envolvimento em irregularidades na negociação da vacina. Segundo a repercussão da reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, os envolvidos não haviam apresentado manifestação sobre as novas alegações até aquele momento.

O que Flávio Bolsonaro diz sobre as acusações?

Flávio Bolsonaro rejeitou as conclusões da CPI da Covid em 2021 e questionou a validade jurídica do relatório.

“Tenho a convicção de que, assim que for analisado juridicamente por qualquer estagiário em direito, onde quer que for parar esse relatório, ele será arquivado”, declarou na época.

O senador também contestou as suspeitas envolvendo a negociação da Covaxin.

“Como há desvio de dinheiro público de uma vacina que não foi comprada?”, questionou durante as discussões sobre o relatório da CPI.

Sobre a investigação da Agência Pública envolvendo os hospitais federais, Flávio não respondeu aos pedidos de entrevista feitos pelo veículo.

Gestores e ex-gestores hospitalares, parlamentares, funcionários dos órgãos de controle da União e servidores públicos apontam que Flávio teria desempenhado um papel na gestão dos hospitais mesmo sem ocupar cargo no Executivo

Rafael Damas | 17:12 – 21/10/2026