(FOLHAPRESS) – Um servidor comissionado da Prefeitura de São Paulo trabalhou em horário comercial para a pré-campanha da primeira-dama Regina Nunes (MDB), pré-candidata a deputada estadual.
Breno de Souza Santos, nomeado em julho de 2025 como assessor na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, atua como “videomaker” para a mulher de Ricardo Nunes (MDB), gravando vídeos para publicação nas redes sociais. Até esta semana, ele recebia R$ 5.637 mensais da gestão municipal, para uma jornada de 40 horas semanais.
A Folha acompanhou durante uma semana os stories de Breno, um tipo de publicação no Instagram que some depois de 24 horas. Ele costumava compartilhar seu cotidiano no trabalho, acompanhando Regina em agendas em diversos horários do dia.
A reportagem procurou a assessoria de comunicação da prefeitura para comentar o caso na terça-feira (12). Na quarta (13), a exoneração de Breno foi publicada no Diário Oficial do município.
Em nota, a prefeitura afirmou que o servidor “exerceu as atividades de sua atribuição, atuando em trabalhos externos e internos de edição de vídeos, publicações em redes sociais e demais atividades do setor de comunicação da pasta”.
A prefeitura negou que o servidor tenha prestado serviços para a primeira-dama enquanto esteve lotado na secretaria. A gestão municipal encaminhou documento de um processo interno que indica que Breno pediu exoneração no último dia 7 -a exoneração, porém, só passaria a ter efeito a partir de segunda-feira (11), conforme o ofício.
Os registros obtidos pela reportagem nas redes sociais do servidor e de Regina mostram que ele trabalhou para a pré-campanha todos os dias da semana passada, quando ainda constava como funcionário da secretaria, de acordo com os documentos encaminhados pela própria prefeitura.
Também há ao menos três vídeos nas redes da primeira-dama e de aliados nos quais Breno aparece trabalhando em seu entorno nos últimos meses.
Numa gravação publicada por uma funcionária da prefeitura no dia 4 de abril, o servidor aparece filmando Regina durante um evento de distribuição de ovos de Páscoa. Em uma transmissão ao vivo da mesma funcionária, há quatro semanas, Breno também está ao redor da primeira-dama, gravando seus passos. Ele acompanhou Regina ainda em uma comemoração da torcida Gaviões da Fiel, no dia 10 de fevereiro.
No último dia 4, Breno participou de uma reunião com integrantes da equipe da primeira-dama. No dia seguinte, gravou conteúdo com Regina em um abrigo de animais em Itapecerica da Serra, na região metropolitana de São Paulo. A defesa dos animais tem sido o mote da pré-campanha da mulher de Nunes, uma das principais apostas do MDB para o Legislativo estadual.
No dia 6, o servidor produziu conteúdo para a primeira-dama no lançamento de uma coleção na Casa Hebe. No dia seguinte, participou de gravação com Regina em Itaquera, em visita a obras do programa municipal habitacional Pode Entrar.
Por fim, no dia 8, Breno acompanhou Regina na Câmara Municipal de São Paulo, em evento de comemoração dos 12 anos do programa Guardiã Maria da Penha.
Nesta quarta-feira, a Folha questionou a prefeitura novamente sobre a existência de registros que mostram a atuação de Breno para a pré-campanha de Regina na última semana.
Em nota, a gestão municipal reiterou que Breno exerceu as atividades de sua atribuição até sua exoneração, “não havendo nada que comprove qualquer desvio de função”. “A Folha de S. Paulo recorre, mais uma vez, a uma perseguição sistemática para comprovar uma tese própria, sem fundamento.”
A advogada Ana Fuliaro, doutora pela USP e especialista em direito eleitoral, diz que esse é um caso de conduta explicitamente proibida pela lei eleitoral. O emprego de servidores em campanha é vedado pela Lei das Eleições, conforme descrito no artigo 73, no rol das “condutas vedadas aos agentes públicos em campanhas eleitorais”.
Segundo Fuliaro, a depender das provas, podem responder pela conduta o próprio servidor, a pré-candidata, que se beneficiou com o trabalho, e a chefia da secretaria.
Em caso de comprovação e condenação, a pena seria a cassação do registro da candidatura ou do mandato -se o julgamento ocorrer após a eleição. A Justiça Eleitoral também poderia determinar uma multa e a devolução dos valores recebidos pelo servidor.
O desvio de função também pode motivar processo no âmbito administrativo, a partir da instauração de uma sindicância, para avaliar eventual ato de improbidade.
Na semana passada, segundo a secretaria, Breno atendeu a secretária-adjunta de Direitos Humanos em eventos como a exposição Jogos Indígenas, na Biblioteca Mário de Andrade, a Feira das Nações e a entrevista coletiva da Virada Cultural, no Theatro Municipal.
Segundo o site da prefeitura, a coletiva começou às 10h de sexta-feira (8), simultaneamente ao evento na Câmara Municipal onde estiveram Regina e Breno, conforme registros obtidos pela Folha.
Duas pessoas que têm ou já tiveram relação com a gestão Nunes ou seus funcionários disseram à reportagem, sob reserva, que a atuação de Breno como “videomaker” de Regina é de amplo conhecimento e que ele passou a trabalhar para a primeira-dama no segundo semestre de 2025.
Também há uma foto dos dois juntos na festa de Ano-Novo organizada pela prefeitura na avenida Paulista.
A reportagem tentou enviar uma mensagem para Breno no Instagram, mas ele tornou a conta privada depois que a prefeitura foi questionada pela Folha sobre o episódio.
















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