(FOLHAPRESS) – Em 1994, a pragmática seleção de Carlos Alberto Parreira conquistou o tetra sob um calor de 38°C. No mês que vem, quando os EUA dividirão sua segunda Copa do Mundo com os vizinhos México e Canadá, deve ser ainda pior, com 25% dos jogos disputados sob condições insalubres para atletas e torcedores, mostra estudo publicado nesta quinta-feira (14).
Oferecimento do aquecimento global gerado pela atividade humana, sobretudo a queima de combustíveis fósseis.
Como em 1994, nem a final escapa. A possibilidade de uma decisão prejudicada pelo calor, porém, só aumentou nestes 32 anos: 50% segundo análise do World Weather Attribution (WWA), grupo de cientistas liderado pelo Imperial College, de Londres.
Acostumado a comparar eventos climáticos extremos com padrões da era pré-industrial, justamente para verificar a responsabilidade que pode ser atribuída às mudanças climáticas, o WWA desta vez usou seus modelos de maneira diferente: para verificar as condições dos 104 jogos programados para este ano e simular o que teria acontecido com a mesma tabela em 1994, que teve originalmente a metade das partidas.
“Eu me lembro bem daqueles jogos. Meus coautores, provavelmente não”, afirmou Friederike Otto, professora de Ciência do Clima, no Imperial College. Na apresentação do estudo, a líder do WWA brincou com os jovens do grupo, que não presenciaram partidas começando ao meio-dia, para atender às TVs europeias, e o massacre perpetrado pelo verão americano.
Em Dallas, Alemanha e Coreia do Sul jogaram com termômetros batendo nos 46°C, recorde não oficial de partida mais quente da história das Copas. Favoritos, os alemães abriram 3 a 0, mas ficaram esgotados no segundo tempo, permitindo dois gols dos adversários.
“Mais da metade do aquecimento global até aqui registrado se deu a partir de 1994, o que aumenta o risco de jogos sob calor perigoso”, disse Otto, ilustrando como o problema deu um salto nas últimas décadas.
Para realizar o estudo, o WWA verificou o clima daquele ano nas sedes, datas e horários dos 104 jogos programados para junho e julho próximos usando uma variável mais precisa, o Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG), amplamente divulgada pela sigla em inglês (WBGT). É um índice que incorpora, além da temperatura, uma medição de umidade, refletindo de maneira melhor o estresse térmico ao qual o corpo humano é submetido durante as atividades físicas.
Dessa maneira, 28°C IBUTG equivalem a aproximadamente 38°C em condições secas e 30°C sob alta umidade. Para o FIFPRO, sindicato global de jogadores profissionais, essa é a marca que, se atingida, deveria parar uma partida. A Fifa (Federação Internacional de Futebol), assim como outras federações esportivas, trabalha com um limite bem mais tolerante, de 32°C IBUTG.
“Quando o IBUTG ultrapassa os 26°C, o desempenho dos jogadores pode ser prejudicado”, declarou Chris Mullington, médico do Imperial College e do NHS, o sistema público de saúde do Reino Unido. “Acima dos 28°C IBUTG, o risco de doenças graves relacionadas ao calor torna-se mais preocupante, não apenas para os jogadores, mas também para as centenas de milhares de torcedores nos estádios e nas fanfests.”
Segundo a análise do WWA, 26 dos 104 jogos de 2026 têm potencial de atingir o limiar dos 26°C IBUTG; outros cinco devem ultrapassar os 28°C IBUTG, a marca crítica na visão do sindicato e da maioria dos especialistas.
A observação da tabela deste ano levada para 1994 atesta a herança da mudança climática sobre o esporte: seriam 21 dos 104 jogos alcançando ou batendo o limite de 26°C IBUTG e 3 no patamar de 28°C IBUTG.
A terceira partida da seleção brasileira no Mundial, contra a Escócia, em Miami, no dia 24 de junho, está classificada como “quase certa” de alcançar os 26°C IBUTG. Para o FIFPRO, atingida essa condição, o jogo deveria ser suspenso para proteger os atletas.
A cidade da Flórida, com estádio aberto, é uma das sedes que mais abrigarão jogos de “alto risco”, como o estudo os denomina, inclusive uma partida das quartas de final, em 11 de julho. Em Dallas e Houston, com arenas climatizadas, o risco restará aos torcedores, que terão que chegar e sair dos estádios em condições de calor. “Seria interessante a Fifa e as autoridades americanas distribuírem água de graça, por exemplo”, disse Mullington.
Para Theodore Keeping, um dos autores do estudo, a análise, submetida ao rigor científico, é conservadora. “Por exemplo, calculamos a temperatura IBUTG em condições de sombra e abrigo. Nos estádios sem cobertura, a luz solar direta será um fator adicional.”
Como em Pasadena, na Califórnia, que consagrou a geração de Romário e Bebeto em 1994, o estádio da final deste ano, o MetLife Stadium, em Nova Jersey, é aberto.
No ano passado, no Mundial de Clubes, também disputado nos EUA, mais da metade dos jogos atingiu ou superou o patamar de 28°C IBUTG, segundo outra pesquisa. Houve pausas para hidratação, mas nenhuma partida foi suspensa devido ao calor; várias foram interrompidas por risco de temporal, seguindo um protocolo americano.
A Fifa promete repetir os intervalos de hidratação na Copa, mas a medida não é vista como suficiente. “De acordo com estudos de fisiologia, essas paradas não são capazes de mitigar o estresse térmico em algumas circunstâncias. Seria necessário um intervalo entre o primeiro e o segundo tempo mais prolongado”, afirmou Mullington. Por outro lado, um evento mais prolongado exporia ainda mais os torcedores nas arquibancadas.
“Do ponto de vista de saúde pública, seria melhor ter a Copa mais cedo ou mais tarde no ano”, disse Otto, lembrando que a Copa do Qatar ocorreu no fim de 2022. “Clima é um fator que cada vez mais terá que ser levado em consideração.”
“Precisamos agir mais rapidamente para proteger o esporte que amamos e todos aqueles que o assistem”, declarou Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC (o braço climático da ONU), após a publicação do estudo do WWA. “Isso significa intensificar a transição decisiva para a energia limpa, o que pode ser um divisor de águas para as pessoas em todo o mundo.”
















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