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Após críticas de Trump, Carney propõe ‘próxima ordem mundial’ no Parlamento Europeu

Canadá cancela inauguração conjunta de ponte após tarifas de Trump

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – “Não estou propondo um terceiro bloco com o objetivo de nos tornarmos uma grande potência rival, apenas com melhores modos. Não buscamos poder para dominar os outros. Pelo contrário, buscamos resiliência para que ninguém, absolutamente ninguém, possa controlar nossos mercados abertos, prejudicar nossa soberania, ameaçar nossa integridade territorial ou minar nossas liberdades, nossas democracias e nosso Estado de Direito.”

Assim como Ursula von der Leyen na véspera, Mark Carney não citou Donald Trump em discurso ao Parlamento Europeu. Recados ao presidente americano, no entanto, se empilharam durante a fala de pouco mais de 20 minutos do primeiro-ministro canadense, nesta quinta-feira (17), em Estrasburgo.

Horas antes, Trump havia reagido mal ao anúncio de que a União Europeia convidou o Canadá para se tornar um membro associado do bloco, um tipo de adesão inexistente até aqui. “Se eles fizerem isso, se eu achar que se trata de um ato hostil, vou impor tarifas muito pesadas ou interromper o comércio com a Europa em muitos setores”, declarou o presidente na noite de quarta-feira.

Trump também chamou a proposta de “ridícula”. Carney respondeu logo após deixar o púlpito do hemiciclo, como o Parlamento é chamado devido a seu formato. “Ninguém vai ditar nossa cultura nem com quem podemos firmar acordos internacionais.”

Em tom mais diplomático, afirmou que “um Canadá mais forte e resiliente seria um parceiro mais efetivo para os EUA”. Os dois países estão comercialmente conflagrados desde agosto, com tarifas de 50% do lado americano e retaliação “dólar por dólar” do outro.

Com cerca de 70% das exportações voltadas ao vizinho, o Canadá intensificou a procura por novos parceiros comerciais, pondo em prática o que Carney, no Fórum Econômico de Davos, no começo do ano, vaticinou como união das potências médias.

Agora, foi além, descrevendo que, combinadas, as forças de Canadá e UE permitiriam a criação “da próxima ordem mundial”. Uma ordem mais “justa, estável e próspera”.

Força e resiliência foram alguns dos termos que Carney repetiu com ênfase em seu discurso em Estrasburgo, inteiramente voltado à proposta de associação. Recebido com entusiasmo e pedidos de selfie por vários eurodeputados -líder dos Verdes, a alemã Terry Reintke vestia uma camisa de Sidney Crosby, capitão da seleção de hóquei do Canadá-, o premiê começou desfiando pontos de contato históricos entre os dois lados do Atlântico.

Citou em alemão um trecho de Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe (“Somente aquele que precisa conquistá-la diariamente merece a liberdade, assim como a vida”), para introduzir a batalha de Vimy Ridge, na Primeira Guerra Mundial, que virou um símbolo de unidade nacional para os canadenses. Em Pas-de-Calais, local do episódio, 248 acres da França foram cedidos perpetuamente ao Canadá para a construção de um memorial.

A reminiscência histórica, por sua vez, serviu de base para falar das ameaças atuais. A sombra de Trump transparece em várias delas. “Hoje, nossas sociedades estão sendo assoladas por novas tempestades: as perturbações causadas pela mudança climática, a erosão das normas democráticas, a instrumentalização do comércio. As organizações multilaterais com as quais costumávamos contar foram enfraquecidas.”

Carney, na sequência, foi ainda mais explícito. “Hoje, é difícil conciliar soberania e abertura. A integração econômica está sendo instrumentalizada, e as tarifas são utilizadas para exercer pressão. Mecanismos financeiros têm sido empregados para fins de coerção. As cadeias de abastecimento constituem pontos fracos a serem explorados.”

Os minerais críticos, um dos principais argumentos por trás da associação, também ganharam ênfase na fala do premiê. “Todos nós temos lacunas importantes nessas capacidades estratégicas, e cada um de nós precisa contar com nações ou empresas específicas para preenchê-las. Isso gera vulnerabilidades, especialmente quando empresas supostamente globais se revelam nacionais na hora da crise.”

Carney observou que não é possível preencher essas lacunas sozinho. “Mas, coletivamente, isso é perfeitamente viável. O Canadá e a Europa são fortes individualmente. A Europa e o Canadá são mais fortes juntos”, disse, arrancando aplausos da plateia.

Eleito no ano passado com a promessa de enfrentar a guerra comercial de Trump e suas bravatas expansionistas, como a que descreve o Canadá como 51° estado americano, Carney lembrou que até os mapas, de certa forma, confirmam a proximidade entre seu país e a UE.

“Canadá e Europa não estão ligados por laços geográficos, embora nossos amigos dinamarqueses saibam que compartilhamos uma fronteira de 3.000 quilômetros no Ártico. Estamos ligados por uma afinidade. Eleita, escolhida, renovada e, por isso mesmo, ainda mais forte”, disse o premiê.

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