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Argentina precisa parar as agressões contra o Brasil para normalizar as relações, diz Mauro Vieira

Argentina precisa parar as agressões contra o Brasil para normalizar as relações, diz Mauro Vieira

(FOLHAPRESS) – O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou ao jornal argentino Clarín que a Argentina precisa “parar com as agressões” contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que as relações entre os dois países voltem à normalidade.

Em longa entrevista ao diário argentino, o chanceler brasileiro afirmou que as relações entre Brasil e Argentina foram rebaixadas “devido às agressões do presidente argentino (Javier Milei) não apenas contra pessoas, mas contra o Brasil, as instituições brasileiras, os Poderes e o ministro do Supremo que teve papel fundamental para impedir um golpe militar e punir os culpados”.

Vieira ressaltou que “Milei não fez isso uma única vez, mas em várias ocasiões em menos de uma semana, a primeira delas na convenção” do PL.

“As imagens daquele evento, aquela atitude do presidente argentino, com palavras graves, foram algo surpreendente para brasileiros e argentinos… Algo espantoso, que depois ele repetiu outras vezes”, afirmou.

O Itamaraty já havia reagido oficialmente às declarações de Milei em território brasileiro, convocando o embaixador argentino e chamando o representante brasileiro em Buenos Aires para consultas.

Brasil cobra fim dos ataques de Milei

Questionado sobre o que o governo argentino deveria fazer para permitir uma retomada das relações, Mauro Vieira afirmou que a interrupção dos ataques é condição necessária para reconstruir o diálogo entre Brasília e Buenos Aires.

“É preciso ser muito claro em nome dessa relação: esse tipo de agressão deve parar imediatamente, para que possamos trabalhar na relação bilateral, que é tão importante”, declarou.

“Essas ofensas foram muito graves. Portanto, é preciso preservar essa relação, suspender as agressões e retomar o caminho da normalidade na relação bilateral.”

A crise ganhou força no fim de julho, quando Milei participou, em São Paulo, do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Durante o evento, o argentino atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O episódio levou o Itamaraty a classificar oficialmente as declarações como agressões ao chefe de Estado e às instituições brasileiras.

Poucos dias depois, Milei voltou a fazer críticas durante entrevista à emissora LN+, do jornal La Nación.

“Falam de interferência política na região. Se há alguém que interfere politicamente na região é Lula, contaminando-a por completo com as ideias imundas do socialismo”, disse.

Na mesma entrevista, voltou a chamar Lula de “vigarista” e “ladrão”.

“É um condenado. Saiu por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e não ataquei os brasileiros; falei em favor dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes, que negou a visita a Bolsonaro.”

Vieira rebate acusações de Milei contra o Brasil

Mauro Vieira também rejeitou a acusação do presidente argentino de que o Brasil estaria financiando uma campanha internacional contra a Argentina.

“Isso é totalmente falso. Não é preciso ser economista para perceber o absurdo dessa história de pagamentos de bilhões”, afirmou.

O chanceler disse ainda ter se surpreendido com o fato de Milei classificar Lula como “comunista”.

“Surpreende porque o Brasil tem uma economia aberta, hoje com a menor taxa de inflação de toda a sua história, desemprego mínimo e um enorme comércio exterior, além de enormes reservas internacionais. É um país que opera com um modelo capitalista.”

Crise diplomática atinge relação histórica entre Brasil e Argentina

O desgaste entre Lula e Milei passou a afetar diretamente a representação diplomática dos dois países. Julio Bitelli, embaixador brasileiro em Buenos Aires, foi chamado para consultas pelo Itamaraty e permaneceu no Brasil sem previsão imediata de retorno à capital argentina.

Brasil e Argentina mantêm uma relação diplomática de mais de dois séculos, e o mercado brasileiro é o principal destino comercial da Argentina, segundo o próprio Itamaraty.

Mauro Vieira também comenta crise entre Brasil e Estados Unidos

Na entrevista, o ministro abordou ainda a crise entre Brasília e Washington e a suspensão do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti.

“Isso sem dúvida faz parte da ofensiva de interferência nas eleições”, afirmou.

O governo Donald Trump alegou reciprocidade, argumentando que o Brasil ainda não havia concedido o agrément a Daniel Perez, indicado por Washington em 30 de junho.

“A suspensão do visto da embaixadora do Brasil teve como objetivo pressionar pela aceitação desse candidato, mas a Convenção de Viena não estabelece prazos para a concessão do agrément. Nós sequer encaminhamos o pedido ao presidente Lula, porque ele está muito ocupado a dois meses das eleições”, afirmou Vieira.