ANDRÉ ARAM
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Foram sete décadas intensamente vividas. Musa dos gays, do Carnaval e da praia de Ipanema, a ex-modelo, atriz e apresentadora Monique Evans completa neste domingo (5) setenta anos e diz que está em uma nova fase. “Tenho estado mais calma, antes era mais explosiva, problemas como depressão diminuíram muito, gosto mais de ficar em casa”, disse ela.
Descrever a trajetória de Monique não é uma tarefa fácil. Com cerca de 55 anos de carreira, ela atuou em diversas áreas: moda, televisão, cinema, negócios. A vida pessoal foi tão agitada quanto a profissional; namorou roqueiros, inspirou canções e lançou tendências como o topless em Ipanema e o cabelo raspado, uma ousadia revolucionária nos anos 1980.
“Ela marcou uma geração, uma das mulheres mais lindas da época, onde ela chegava parava tudo com seu jeito único, reinava nas praias e tinha o lado família, sempre com a mãe e o filho”, relembra a ex-modelo e apresentadora Nani Venâncio, que atuou com ela na minissérie “O Guarani” na extinta TV Manchete em 1990.
Sua mãe a acompanhou inclusive em sua despedida de solteira no espetáculo gay Noite dos Leopardos, no Rio. “Levei ela, e tinha aqueles homens nus. Um dançarino ajudou ela a subir ao palco; ele com ereção quase na cara dela”, relembra, às gargalhadas. Idolatrada pelos gays, esteve na 1ª parada LGBT no Rio em 1995 e abraçou campanhas de prevenção ao HIV/Aids.
Vanguardista, tudo soava espontâneo para ela. “Era natural, não pensava antes de fazer, não tinha malícia nas coisas que fazia.” Para ela, as pessoas eram menos caretas nos anos 1980; em contrapartida, os ensaios nus eram mais discretos naquele tempo, “não era aquela coisa de close na perereca, não tinha isso, era uma nudez artística mesmo”, rememora.
Monique começou como modelo aos 14 anos e logo se tornou uma das profissionais mais requisitadas do país. Se a vida de top model é curta, para ela foi longeva, trabalhando ativamente por mais de três décadas.
Embora tenha sido um ícone da moda, ela não se limitou apenas ao mundo fashion; sempre em constante reinvenção, fez novelas, filmes, foi jurada do Cassino do Chacrinha, apresentou programas de TV e bailes de carnaval. Foi pioneira como rainha de bateria em 1984, atraindo todos os holofotes ao pisar na Sapucaí.
Questionada se a imagem de símbolo sexual a incomodou em algum momento, ela afirma que existiam duas Moniques no passado: uma muito tímida, caseira e família, e a da TV: “A Evans era uma personagem que incorporava, então o símbolo sexual era ela, porque a Monique era careta com o sexo, nunca fui de trair; só que as pessoas me colocavam como ‘A sexy'”.
Casada com a DJ Cacá Werneck, 42, ela fala sobre a união de 12 anos, oficializada em 2024: “É uma coisa de alma, parece de outras vidas, estamos sempre juntas. Nossa relação dá certo por sermos muito amigas, companheiras; acho que é mais fácil do que um homem e uma mulher.”
Monique reflete um pouco mais sobre o assunto: “Homem pensa muito diferente da mulher, não a entende, e entre duas mulheres isso existe, a gente pensa parecido”.
Vivendo uma vida mais reservada no burburinho de Ipanema, não passa incógnita; as pessoas continuam a abordá-la e a pedir fotos ao seu lado. Continua famosa. Mas a fama parece ter outro conceito hoje para ela: “Às vezes gostaria de não ter essa fama, mas logo a Cacá diz que, se não me reconhecessem mais, eu também iria ficar chateada; então não sei”, pondera.
Enquanto conversa com o repórter, ela cuida dos preparativos do almoço de aniversário na casa da mãe, que terá a presença de parentes, do irmão Marcos Pantera e da filha Bárbara com os três netos. Ela lamenta a ausência do filho Armando e da neta Valentina, que moram na Espanha.
Saudades do Noite Afora
Arrependimentos? Nenhum. Mas lamenta ter deixado o comando do Noite Afora, na Rede TV! (2001-2004) por influência de um pastor de sua igreja (quando era evangélica) que insistia em dizer que ela estava em pecado e que deveria deixar a TV.
“Foi uma burrada que fiz na minha vida, não deveria nunca ter largado, porque era um programa incrível”. Hoje a fé tem outro significado para ela: “Acredito em Deus, sou cristã, mas não sigo mais nenhuma religião.”
Monique tem saudades da atração criada por ela, desde o nome ao cenário inspirado na casa da Minnie após uma viagem à Disney. Antes, passou pelo ShopTime com o De Noite na Cama, focado na venda de itens eróticos.
Ainda assim, a artista se sente realizada profissionalmente. “Tenho muito orgulho de tudo que fiz”. Diz apreciar uma vida mais calma, sem tantos compromissos como no passado. “Hoje em dia não quero pensar em nada, em horários; quero acordar a qualquer hora. Não estou pensando em novos projetos”. Atualmente, seu único projeto é fazer um mini lifting facial, por ser um recurso que não exige anestesia geral, algo de que tem medo.
Envelhecer faz parte
Quando o assunto é envelhecer, ela faz uma reflexão sobre sua visão no passado: “Quando era mais jovem, pensava que uma mulher de 50 estava velha, e uma de 70 já estava pronta pra morrer; hoje vejo que a nossa geração pensa diferente; não consigo me ver assim (idosa)”.
Quanto à boa forma, ela explica que malha por saúde, e não vaidade: “O corpo já entreguei pra Deus; se for consertar a barriga, de que vai adiantar se o braço tá pelancudo (risos)? Continuo malhando principalmente para ter autonomia”, citando como exemplo a mãe, de 91 anos, que usa um andador por não ter exercitado o corpo no passado.
“Me cuido desde agora para não ter esses problemas, mas levo de boa se o braço tá flácido, não me preocupo com isso”. Ela conta que passou ilesa pela menopausa. Nem sentiu. “Estava malhando tanto e fazendo tanta dieta que parei de menstruar por isso. Como não tinha TPM, nem senti os efeitos dela”.
Ao longo de décadas, Monique foi referência de beleza, influenciou comportamentos, inspirou gerações, criou tendências, sempre de forma genuína. Foi corajosa ao falar sobre saúde mental e o relacionamento entre iguais em uma sociedade, ainda que conservadora. Ousou e inovou, tornando-se uma personalidade dona de um legado artístico que perdura há mais de meio século.
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