SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O cofundador da Microsoft Bill Gates defendeu nesta quarta-feira (26) que alguns empregos deveriam ser reservados apenas a seres humanos e que os governos deveriam criar impostos sobre o uso de robôs e “tokens”, as unidades de dados processadas por sistemas de IA.
Em um longo ensaio publicado em seu site, o bilionário ressaltou sua preocupação com a falta de preparo dos governos para enfrentar os “tempos turbulentos” que a tecnologia trará, alegando que eles não estão fazendo o suficiente para lidar com a inteligência artificial.
Gates destacou que o recurso afetará todas as áreas públicas e exigirá uma resposta governamental maior do que as mudanças institucionais voltadas à segurança nacional após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.
O cofundador da Microsoft advertiu que “muitos empregos desaparecerão para sempre”, mas que autoridades poderiam “reservar certas atividades exclusivamente para pessoas”, como uma medida para proteger grupos de trabalhadores “que não conseguem mudar de emprego com facilidade”.
“Gosto da expressão ‘reservado a humanos’ porque ela me faz pensar em reservas naturais -lugares onde poderíamos construir prédios e estradas, mas optamos por não fazê-lo porque a perda seria grande demais”, escreveu.
“Na área da saúde, por exemplo, imagine um robô lhe dando a terrível notícia de que você tem uma doença incurável. Não há nenhum motivo técnico para que ele não possa fazer isso. Ainda assim, não deveria”, analisou Gates em seu primeiro texto extenso sobre IA em três anos.
Ele afirmou que decidiu se manifestar de forma mais aprofundada porque os avanços recentes da IA superaram em muito suas expectativas. Além disso, defende que o setor ignorou marcos tecnológicos, exemplificados nos casos dos modelos que escaparam do controle de seus criadores para invadir outras empresas.
“Eles estão simplesmente avançando a toda velocidade e torcendo para que os benefícios superem os prejuízos”, analisou.
Gates disse que os avanços tecnológicos o deixaram atônito em três ocasiões: em 1980, quando viu pela primeira vez uma interface gráfica de usuário, que deu origem ao computador pessoal moderno; em 2022, quando os líderes da OpenAI foram à sua casa demonstrar o que em breve se tornaria o ChatGPT; e neste ano, quando examinou de perto os avanços do Claude Code, ferramenta de IA da Anthropic.
Programação, disse Gates, é o assunto que ele conhece melhor, e as capacidades do Claude o chocaram. “A ideia de que agora essas coisas são, em um sentido relevante, melhores do que eu é de fazer pensar: mas que diabos?”, escreveu.
O ensaio marca uma das primeiras grandes manifestações públicas de Gates desde que ele se viu envolvido no escândalo de Jeffrey Epstein, que também colocou sob questionamento as ligações da Fundação Gates.
Ele continua como presidente de sua fundação filantrópica, avaliada em US$ 89 bilhões, e não foi acusado de envolvimento nos crimes de Epstein. Gates já afirmou que lamentava “cada minuto” que passou com o criminoso sexual, motivado, segundo ele, pela crença equivocada de que o financista poderia conseguir doações de pessoas ricas para causas beneficentes.
“Acho que as pessoas entendem o que fiz, o que não fiz e que aprendo quando cometo erros”, afirmou na entrevista ao jornal The New York Times no mês passado.
A intervenção de Gates no debate sobre IA ocorre em meio à crescente preocupação com seu impacto na economia e na sociedade. OpenAI e Anthropic, duas das principais desenvolvedoras de IA, também alertaram que os governos precisarão de novas políticas para administrar os riscos da tecnologia e enfrentar os transtornos econômicos.
No ensaio, o bilionário defendeu uma coordenação global, inclusive com a China, observando que surgirão questões difíceis sobre quem decidirá quais empregos serão reservados a humanos e como reagir caso determinados países permitam um grau maior de automação.
Ele expôs preocupações relacionadas à força de trabalho, ao uso da IA para ampliar a capacidade de agentes mal-intencionados em áreas como a segurança cibernética e ao desenvolvimento dos jovens.
Gates comparou os seus tempos de juventude para fazer o alerta. “Quando eu estava crescendo em Seattle, não tinha muitos amigos, além de alguns outros garotos parecidos comigo”, afirmou para lembrar o esforço que fez para socializar.
“Duvido que eu tivesse me esforçado da mesma forma se tivesse um companheiro de IA naquela época”, disse, destacando o potencial de chatbots muito condescendentes se tornarem viciantes.
Ele também expressou preocupação com o impacto da IA na educação, citando indícios preliminares de que ela pode afetar o pensamento crítico.
Gates também se juntou a empresas de IA, como Anthropic e OpenAI, na defesa de mudanças no sistema tributário, incluindo a cobrança de impostos sobre robôs e tokens.
“Atualmente, se você é empregador e contrata alguém, paga encargos sobre a folha de pagamento com base nos rendimentos dessa pessoa. Mas, se compra um robô, geralmente pode deduzir imediatamente o valor como despesa empresarial. O sistema tributário incentiva a substituição de pessoas por máquinas”, afirmou.
“Infelizmente, neste momento, não estamos nos preparando para ele. Não vejo indícios de que líderes, especialistas e comunidades estejam enfrentando esses desafios de forma adequada”, constatou o empresário.
Além das questões de saúde global, Gates prometeu incluir sua preocupação com a IA em todas as conversas que mantivesse com líderes mundiais. “Só tenho duas questões sobre as quais vou dizer: ‘Por favor, pensem mais nisso, por favor, deem mais importância a isso'”, afirmou.
Gates reconheceu estar em uma posição peculiar: é possível argumentar que ele fez tanto quanto qualquer outra pessoa no mundo para promover e moldar a moderna indústria da computação. Mas agora alerta que a tecnologia criada por esse setor apresenta riscos globais.
“Não gosto de dar más notícias às pessoas e não gosto de dizer que a inovação pode, no fim das contas, ser prejudicial”, afirmou. “Mas é nessa situação que estamos”.
Um dos líderes que Gates gostaria de encontrar é o líder chinês, Xi Jinping. “O mundo inteiro concordaria com isso”, declarou o bilionário à agência de notícias Reuters. Ele disse que pretende se reunir ainda este ano, ansioso para propor esforços globais para mitigar os riscos crescentes representados pela inteligência artificial. Eles se encontraram há três anos, quando foi o primeiro empresário estrangeiro a ser recebido pelo líder chinês depois do lockdown causado pela Covid-19.
A equipe de Gates afirmou que está trabalhando para finalizar uma reunião com Xi para sua próxima viagem à China, segundo seu porta-voz, que deve ocorrer em novembro.
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