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Brasileira Christina Oiticica expõe na Itália obra criada pela natureza

Brasileira Christina Oiticica expõe na Itália obra criada pela natureza

Uma artista brasileira levará ao norte da Itália uma exposição construída a partir da relação entre arte, natureza e espiritualidade. Christina Oiticica apresenta, de 12 de setembro a 27 de outubro, a mostra “Quando o Céu Invade a Terra”, no Grand Hotel Majestic, às margens do Lago Maggiore.

Nascida no Rio de Janeiro e atualmente radicada em Genebra, Christina desenvolveu ao longo da carreira um processo no qual elementos naturais deixam de ser apenas inspiração e passam a interferir diretamente no resultado das obras. Chuva, sol, vento, terra, água e sal participam da criação e deixam marcas impossíveis de serem reproduzidas exatamente.

“Compreendi que o meu trabalho precisava sair das paredes do ateliê. Tornei-me uma parceira da natureza, e o meu trabalho recebeu a sua impressão digital”, afirma.

A exposição italiana tem curadoria de Adelina von Fürstenberg, em colaboração com o arquiteto Marcelo José Mendonça, e reúne diferentes momentos da trajetória da artista.

Obra inédita nasceu a partir de um sonho

Um dos principais destaques será “Mamã Muxima”, trabalho inédito cuja origem está em um sonho vivido por Christina.

A artista conta que sonhou que subia uma montanha com uma amiga para visitar uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Dentro do templo, inicialmente escuro, conseguia enxergar apenas uma figura vermelha.

“Quando as luzes se acenderam, vi que era vermelho por ser uma Nossa Senhora coberta de corações”, relata.

No dia seguinte, segundo Christina, um amigo enviou a ela um vídeo de uma igreja localizada no alto de uma montanha em Florianópolis e dedicada justamente a Nossa Senhora da Conceição.

A coincidência levou a artista a pintar a imagem com corações. Mais tarde, ela descobriu Nossa Senhora da Conceição da Muxima, padroeira de Angola e conhecida como Nossa Senhora dos Corações.

“Foi aí que nasceu ‘Mamã Muxima'”, conta.

A obra não ficou restrita ao ateliê. Em 5 de junho, Christina mergulhou a tela nas águas do Lago Maggiore. O trabalho permanecerá submerso durante três meses na Isola San Giovanni Borromeo, em frente ao hotel onde a exposição será realizada.

A proposta é permitir que a própria ação da água participe da transformação estética da peça antes de sua apresentação ao público.

Natureza como coautora

O método adotado por Christina está ligado à Land Art, vertente na qual a paisagem e os elementos naturais participam da criação artística.

Ao longo da carreira, ela já realizou intervenções em diferentes ambientes, entre eles a Amazônia, os Pirineus franceses, a Bahia, o Japão e as Ilhas Eólias.

Em cada experiência, as condições do lugar modificam a obra. A exposição ao tempo, à terra, ao vento ou à água produz resultados que não podem ser controlados integralmente pela artista.

Esse princípio também aparece em trabalhos selecionados para a mostra italiana.

Entre eles está “Heart of Bahia” (“Coração da Bahia”), uma escultura em formato de coração produzida com fitas do Senhor do Bonfim, elemento associado à religiosidade popular brasileira.

A exposição inclui ainda peças da série “Birth of Venus” (“Nascimento de Vênus”). Nesses trabalhos, Christina revisita a referência renascentista a partir da interferência do sal na Salina Ettore e Infersa, em Marsala, na Itália.

Duas obras realizadas em parceria com o artista indígena Txa Txu Pataxó também estarão na seleção. Os trabalhos permaneceram enterrados durante um ano sob uma gameleira em uma aldeia na Bahia.

Arte, literatura e espiritualidade

A mostra terá ainda ilustrações produzidas por Christina para uma edição especial do livro “Histórias para pais, filhos e netos”, de Paulo Coelho, escritor com quem a artista compartilha a vida há mais de quatro décadas.

O próprio nome da exposição procura sintetizar a dimensão espiritual presente em sua produção.

“O título da exposição nasceu da ideia de que mudanças profundas acontecem quando o divino toca a realidade humana. As obras desta exposição foram transformadas pela água, pela terra, pelo sal e pelo ar”, explica Christina.

Para a artista, essa transformação não se limita aos materiais empregados no processo criativo.

“Quando o céu invade a terra, mudanças profundas acontecem nos corações dos seres humanos. E o inconsciente interfere no físico”, afirma.

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Folhapress | 20:12 – 26/08/2026