(FOLHAPRESS) – Quando um dos palestrantes pediu que as mulheres presentes no anfiteatro do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro levantassem a mão, três se manifestaram na multidão de 600 pessoas. Entre sexta passada (24) e domingo (26), O Farol e a Forja reuniu em Santo Amaro (zona sul de São Paulo) sobretudo homens de 30 a 50 anos, a maioria vindo de outros Estados, para ouvir palestras sobre o que os organizadores chamavam de crise da masculinidade.
Nas escadas, nos corredores e diante do palco, predominavam as jaquetas matelassadas de nylon, comuns em escritórios do mercado financeiro e, aparentemente, entre homens em crise. Do lado de fora, lindos pavões e graciosas pavoas circulavam livremente entre as lanchonetes e uma praça de estandes que vendia livros católicos, cursos de Bíblia, camisetas com temas religiosos e comes e bebes.
Idealizado pelo ator Juliano Cazarré, o evento foi apresentado como o início de um projeto permanente de formação masculina. Cazarré disse que pretende realizar novas edições na Uni Ítalo e estudar uma versão itinerante, depois de receber pedidos de participantes de Pernambuco, Paraíba, Goiás e Mato Grosso.
Sua mulher, Letícia Cazarré, também começou a pensar em um encontro voltado às mulheres.
A ambição de continuidade já aparecia na programação. O momento anunciado como “pitch” (apresentação) central foi dedicado à L’Academia, plataforma de cursos liderada por Letícia.
A progressão hierárquica masculina também batizava os ingressos: a entrada pelos três dias online custava R$ 597, e as modalidades presenciais se chamavam Âncora, por R$ 1.797, Forjador, por R$ 3.297, e Mestre, por R$ 5.747.
“Perguntei ao auditório nesta manhã quem estava ali porque a mulher tinha comprado o ingresso ou mandado que fosse, e cerca de 90% levantaram a mão. Isso mostra que havia uma demanda das próprias esposas para que os homens assumissem sua parte na família”, disse Cazarré à reportagem.
O diagnóstico não o leva a aderir a todas as correntes contemporâneas que afirmam defender os homens. Na entrevista, Cazarré chamou o movimento red pill de “uma cagada” por difundir a ideia de que os homens não deveriam se casar. “A gente precisa de homens mais presentes na família. A gente sabe do tanto de homem que abandona a mulher”, afirmou.
Em uma das palestras do curso, o ex-lutador Rodrigo Minotauro e Cazarré apresentaram o jiu-jítsu como instrumento de formação moral. Minotauro disse reservar os minutos finais das aulas infantis para conversar sobre responsabilidade e empatia. Segundo ele, a prática produz mudanças concretas, como crianças que passaram a arrumar a própria cama e a melhorar a relação com a família.
A palestra seguinte, intitulada “Como o sistema atua para emascular o homem”, adotou um tom mais político. A influenciadora Bárbara Hannelore, conhecida como Babi Mendes, afirmou que a crise da masculinidade decorre da destruição dos papéis tradicionais de homens e mulheres.
Segundo ela, o feminismo e a revolução sexual enfraqueceram a autoridade masculina dentro da família e afastaram os pais da educação dos filhos. “É impossível falar de masculinidade sem falar dessa presença de Deus em nós, desse lugar onde você só fica de pé se antes tiver ficado de joelhos.”
Mendes também relacionou a crise da masculinidade ao crescimento da presença do Estado na vida das famílias. Citou o fato de a maior parte dos benefícios do Bolsa Família ser destinada a mulheres e argumentou que isso substituiria o papel masculino de provedor.
“O Estado simplesmente tira o homem do seu papel para suprir esse papel. Quando se coloca essa dependência na mulher, isso vira um instrumento de manipulação, um lindo curral eleitoral.”
A crítica ao progressismo aparecia também em outras áreas do encontro. Gabriel Kanner apresentou um programa ligado ao Instituto Hipótese e a uma revista criada para publicar autores conservadores que, segundo ele, não encontravam espaço nas universidades.
A mesma disputa cultural ocupava as mesas da Editora Quadrante. Renata Ferlin, CEO da casa, disse que o livro mais vendido do evento, inclusive esgotado, havia sido “A Cultura Woke”, da filósofa americana Noelle Mering.
Também tiveram boa saída livros de oração para crianças, uma biografia do arquiteto catalão Antoni Gaudí e “Caminho”, do sacerdote espanhol Josemaría Escrivá.
Questionada se havia livros de formação voltados à esquerda, Ferlin respondeu que a editora não trabalha a partir da divisão partidária. “A fé católica é para todos. Então, de esquerda, direita, não importa.”
A religião não aparecia apenas ali. Em outro estande, um vendedor chamado Nathan oferecia por R$ 269,90 a Bíblia do Zero, curso de 30 horas, dividido em 12 módulos. O pacote incluía um aplicativo de meditação guiada e uma comunidade com transmissões diárias para acompanhar os alunos.
No último dia, Wendell Carvalho levou ao palco a vertente financeira desse discurso. “Enriquece quem ajuda mais pessoas”, repetiu, ao mostrar fotografias de alunos com placas que indicavam faturamentos de R$ 600 mil ou R$ 1 milhão. Disse que o dinheiro poderia dar segurança à família, financiar caridade e evitar sofrimentos provocados por decisões adiadas.
Carvalho terminou a palestra encenando o velório de todos os presentes, que renasciam depois de ouvi-lo. Para marcar a mudança, pediu que os participantes trocassem os celulares com os vizinhos e gravassem uns aos outros fazendo uma promessa a ser enviada às esposas.
Já Raul Martins abordou a formação masculina por outro caminho. Contou que só perto dos 40 anos percebeu a importância de um gesto simples do pai: levá-lo a uma biblioteca pública. “Um minúsculo gesto tem uma gigantesca importância para os filhos de vocês”, disse.
Segundo Martins, crianças que veem o pai lendo ou são levadas por ele a um sebo passam a associar os livros a uma experiência feliz. “Na verdade, ele vai associar a leitura a você. Ele vai associar a leitura à sua presença.”
Letícia Cazarré apresentou uma formulação menos concentrada na ameaça ao masculino. Sua palestra tratou de “visão compartilhada”: a construção, pelo casal, de um plano de futuro comum. “A sua vida seria muito melhor se você tivesse uma visão de futuro compartilhada com quem você mais ama”, disse no início da apresentação.
Ao apresentá-la, Cazarré contou que Letícia se formou em biologia na Universidade de Brasília, trabalhou como primatóloga e deixou dois cargos públicos para acompanhá-lo no Rio de Janeiro e cuidar da família. Depois estudou moda, tornou-se editora e criou uma revista que circulou por cinco anos. O casal tem seis filhos. Agora que voltou ao mercado digital e à educação, ela passou a liderar a L’Academia.
Um dos espectadores resumiu o que havia entendido com a sequência: Deus, esposa, filhos e trabalho. Esse participante era Cláudio Faez, administrador de 49 anos, que viajou de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, exclusivamente para o evento. Disse que a vida muitas vezes fica “meio desordenada” e que a palestra de Letícia o havia feito rever a hierarquia de suas obrigações.
Fábio Maia, da mesma idade, também veio do Rio de Janeiro. Para ele, o encontro não era de autoconhecimento nem de autoajuda. Servia para validar ideias que os participantes já traziam. “A unidade, o alinhamento de pensamento, de valores, estão dentro dessa sala”, afirmou.
Jonas Todescatto foi outro que viajou especialmente para o Farol e a Forja, neste caso, do Rio Grande do Sul. Disse que o principal aprendizado estava nas discussões sobre família, valores e virtudes. Os três depoimentos reproduziam, sem grandes variações, as palavras mais repetidas no palco.
Antes da realização, o evento foi acusado nas redes sociais de promover o machismo. Cazarré chamou a reação de “ansiedade ideológica” e disse que críticos chegaram a relacionar o encontro ao feminicídio. Afirmou que seu objetivo era justamente formar homens menos violentos, mais parceiros e mais defensores das mulheres. Para ele, o apoio superou os ataques.
Encerrada a primeira edição, a equipe começava a fechar as contas e a avaliar como levar o formato a outras regiões. Letícia, por sua vez, pensava na versão feminina do encontro em que, entre 600 pessoas, apenas três mulheres haviam levantado a mão.
















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