Em 2021, o então senador Flávio Bolsonaro integrou a defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, em Niterói. A menina foi atingida durante uma ação policial, segundo a acusação. Flávio assinou um recurso contra a decisão que determinava que o policial fosse julgado pelo Tribunal do Júri. A atuação do senador como advogado é documentada; Delaroli aparece nas reportagens como acusado, não como condenado. horadopovo.com.br
O episódio é um dos mais sensíveis do histórico do candidato do PL à Presidência. Outros envolvem a destinação de recursos para um filme sobre o pai, despesas pessoais relatadas por um ex-sócio, uma denúncia sobre salários de assessores e declarações sobre a ditadura, a pandemia e direitos trabalhistas.
Vorcaro e o financiamento de Dark Horse
Flávio procurou Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do Intercept Brasil reproduzida pela Folha de S.Paulo, a negociação previa US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época. Ao menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, teriam sido transferidos. Um áudio divulgado pelo site mostra Flávio cobrando mais recursos para concluir a produção.
O senador primeiro negou o financiamento. Depois, reconheceu que havia procurado Vorcaro e definiu a iniciativa como “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado”. Negou ter oferecido vantagens em troca do dinheiro. A produtora Go Up Entertainment afirmou inicialmente que não havia recebido recursos de Vorcaro.
Em setembro, a Folha noticiou que, segundo dados do Coaf divulgados pela revista Piauí, Vorcaro fez um repasse adicional de US$ 1,6 milhão, cerca de R$ 8,5 milhões. Uma perícia contratada pela produtora registrou US$ 13,39 milhões, equivalentes a R$ 75,18 milhões, em aportes e despesas ligados ao filme. O laudo não identificou todos os fornecedores nem apresentou notas fiscais que permitissem acompanhar cada pagamento. A Polícia Federal investiga os repasses e a destinação dos recursos.
Rolex, prostitutas e despesas pessoais
Em outra apuração, o UOL publicou mensagens, fotos e documentos guardados por Alexandre Santini, ex-sócio e antigo amigo de Flávio. O material, revelado pelo site PlatôBR, veio a público durante uma disputa financeira entre os antigos sócios.
Segundo as reportagens, mensagens atribuídas a Santini indicariam que ele organizava encontros privados com garotas de programa e que Flávio teria participado de algumas festas. Em mensagem atribuída ao senador, ele disse ter se arrependido de “muitas escolhas erradas”, sem especificar a que situações se referia.
O UOL e o PlatôBR também relataram que um Rolex de ouro branco, avaliado em R$ 305 mil, teria sido comprado para Flávio pelo advogado Alan Belaciano. Segundo o material, Belaciano também pagou mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia instalados na casa do senador, além de outras despesas. Flávio havia dito que o relógio foi comprado por um amigo como “empréstimo pessoal” e que estava pagando por ele.
As reportagens também citaram mensagens sobre uma possível conversa de Flávio com o ministro do STF Kassio Nunes Marques em favor de um cliente. O UOL afirmou não ter obtido comprovação independente dessa suposta intermediação. O gabinete do ministro disse que atender parlamentares é uma prática comum. noticias.uol.com.br
‘Rachadinha’ – Denúncia sobre salários de assessores
Quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio foi denunciado pelo Ministério Público sob suspeita de participação em um esquema de devolução de salários de assessores, conhecido como “rachadinha”. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia depois que tribunais superiores invalidaram parte das provas. O próprio Ministério Público havia pedido a anulação. O caso não resultou em condenação.
Escala 6×1: crítica à proposta de Lula
Em outubro de 2026, Flávio chamou de “oportunista” a proposta apoiada por Lula para reduzir a jornada e substituir a escala 6×1 por uma semana de cinco dias, sem redução salarial. “Lula, em quatro anos de governo, não faz. Agora, no meio do segundo turno, ele vem de uma forma oportunista querer fazer um movimento achando que isso vai dar voto para ele”, disse. Também acusou o presidente de estar “pensando no poder, não no trabalhador”.
Como alternativa, Flávio defende a PEC 12/2026, apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN). A proposta prevê jornada flexível, com pagamento por hora e remuneração proporcional às horas contratadas. A Folha apontou que, nesse modelo, salário, férias, 13º e FGTS podem diminuir conforme a carga horária. A PEC apoiada por Lula prevê reduzir a jornada para 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e sem corte salarial.
Bets: contra a proibição, mas sem detalhar uma alternativa
Flávio criticou a medida provisória do governo Lula que proibiu as apostas on-line e chamou a decisão de “agressão à segurança jurídica”. Também voltou a chamar o presidente de “pai do tigrinho” e classificou a medida como “populista, hipócrita e eleitoreira”. O senador lembrou que votou contra a regulamentação das bets aprovada em 2023.
Ele diz ser necessário diferenciar apostas esportivas de cassinos on-line, como o chamado “jogo do tigrinho”. Questionado pela Folha sobre o que faria com as bets esportivas se fosse eleito, porém, evitou apresentar uma proposta específica e não respondeu se votaria a favor ou contra a medida provisória. Durante o governo de Jair Bolsonaro, as casas de apostas se expandiram sem regulamentação federal.
O livro e a defesa da ditadura
Em Jair Messias Bolsonaro: mito ou verdade, publicado em 2017, Flávio narra a trajetória do pai e expõe posições próprias sobre o regime militar, direitos humanos, violência e urnas eletrônicas.
Na obra, nega que tenha ocorrido um golpe em 1964 e afirma que os militares deveriam ser tratados como “heróis nacionais”. Ao falar do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi de São Paulo entre 1970 e 1974, Flávio o descreve como “um homem correto, íntegro”. Ustra foi reconhecido pela Justiça brasileira como torturador e apontado pela Comissão Nacional da Verdade como responsável por graves violações de direitos humanos.
Flávio também classificou a Comissão da Verdade como uma iniciativa “revanchista”, defendeu a atuação dos policiais no massacre do Carandiru, que deixou 111 presos mortos, e questionou a confiabilidade das urnas eletrônicas. Em 2026, segundo a Folha, voltou a divulgar informações falsas sobre o sistema eleitoral durante um evento com diplomatas. www1.folha.uol.com.br
Em 2018, Flávio divulgou a alegação de que o livro Aparelho Sexual e Cia. havia sido distribuído pelo Ministério da Educação. O Tribunal Superior Eleitoral considerou a informação inverídica e manteve contra ele uma multa de R$ 30 mil por propaganda irregular com desinformação. Naquele período, ao defender o pai em meio a críticas por declarações sobre pessoas LGBT, Flávio afirmou que “o normal é ser heterossexual”.
Covid-19: cloroquina e crítica ao isolamento
Mais de 700 mil pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. Durante a pandemia, Flávio defendeu medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e criticou medidas de distanciamento social.
Em setembro de 2020, depois de testar positivo, escreveu que havia tratado os sintomas com hidroxicloroquina e azitromicina. Em março de 2021, afirmou que “tratamento precoce e vacina são totalmente complementares”. No mesmo mês, compartilhou um vídeo que comparava a divisão entre atividades essenciais e não essenciais, adotada por governos estaduais, às decisões dos nazistas em campos de concentração.
Flávio também defendeu o chamado “isolamento vertical”. Em março de 2020, escreveu que era preciso “sair do isolamento horizontal para o vertical” e elogiou Jair Bolsonaro por defender a circulação de pessoas. A coluna Painel, da Folha, registrou que o senador passou a defender as vacinas a partir do primeiro semestre de 2021 e chegou a fazer campanha por imunizantes. A assessoria de Flávio não respondeu às perguntas enviadas pelo jornal sobre as manifestações anteriores.
Quem caminha ao lado de Flávio
Entre os principais aliados de Flávio Bolsonaro estão Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha. Valdemar foi preso em fevereiro de 2024, durante uma operação da Polícia Federal que investigava uma tentativa de golpe de Estado, após os agentes encontrarem uma arma sem registro em sua casa. Ele foi solto dois dias depois.
Na quarta-feira (7), em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, Valdemar afirmou que houve discussões sobre um golpe no fim do governo Jair Bolsonaro. “Discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe. E daí?”, disse. Perguntado se algo semelhante poderia ocorrer em um eventual governo de Flávio, respondeu “Sei lá” e, em seguida, “Nunca. Jamais”. Valdemar também defendeu que Flávio conceda anistia ao pai no primeiro dia de um eventual governo.
O vice de Flávio, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), também foi alvo de uma acusação grave: parlamentares afirmaram que ele teria estuprado uma adolescente de 13 anos, que teria engravidado. Gaspar negou a acusação e disse que o caso era uma perseguição política. A Polícia Federal pediu a abertura de investigação, mas o procedimento foi arquivado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, em outubro. Reportagens também apontaram versões contraditórias do homem que levou a acusação aos parlamentares.
No segundo turno, recebeu também o apoio do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e de partidos como Republicanos, Podemos e da federação União Brasil-PP. Ronaldo Caiado e Romeu Zema estão entre os líderes que declararam apoio ao senador.
Reajuste das aposentadorias, auxílios e BPC do INSS, na mira de Flávio Bolsonaro
A equipe econômica da campanha de Flávio estuda alterar a regra de reajuste do salário mínimo, que também é o piso previdenciário, para trazer economia de R$ 250 bilhões. O candidato nega.
O salário mínimo tem aumento acima da inflação, em regra reeditada por Lula em 2023 e modificada no final de 2024 para limitar o ajuste ao arcabouço fiscal. Hoje, de cada 10 beneficiários da Previdência Social, 7 recebem o piso previdenciário, no valor do salário mínimo.
















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