SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em alta de 0,28% nesta quarta-feira (24), cotado a R$ 5,200, impulsionado pela aversão global a ativos de risco e pela queda do preço do petróleo pelo terceiro dia consecutivo.
A moeda oscilou entre R$ 5,187 na mínima e R$ 5,221 na máxima, voltando a testar patamares que não eram vistos desde março. A valorização foi global, com o índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de seis divisas fortes, em alta de 0,2%, a 101,61 pontos.
A pauta principal do dia foi a retomada gradual do fluxo de navios pelo Estreito de Hormuz, via responsável pelo transporte de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Os preços do barril da commodity caíram mais de 4% nesta sessão, com o Brent cotado a US$ 73.
O cenário pressionou as ações da Petrobras, que caíram mais de 2,5% e puxaram a Bolsa para baixo. O Ibovespa, assim, fechou em queda de 0,43%, a 170.506 pontos.
Navios voltaram a passar por Hormuz nesta quarta, no âmbito de um plano de retirada recém-lançado pela OMI (Organização Marítima Internacional, agência de navegação ligada à ONU).
Um porta-voz da OMI se recusou a fornecer detalhes sobre as embarcações que cruzaram o estreito, mas pelo menos dois navios de granéis sólidos e um navio de carga atravessaram a via marítima nas últimas 12 horas, segundo dados de rastreamento da LSEG.
Ao menos outros 35 navios comerciais, principalmente de granéis sólidos, cargueiros e porta-contêineres, se preparavam para atravessar o estreito.
A retomada do fluxo segue a esteira da primeira rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã na Suíça, na segunda-feira (22). Ambos os países assinaram um memorando de entendimento para colocar fim na guerra no Oriente Médio, que começou no final de fevereiro.
Nesta quarta, o presidente Donald Trump afirmou que Teerã reiterou que não estava cobrando pedágio dos navios que transitam por Hormuz.
“O Irã informou aos EUA que, apesar das notícias falsas e provocadoras que afirmam o contrário, ‘NÃO HÁ PEDÁGIOS, NÃO HÁ CUSTOS DE SEGURO E NENHUMA OUTRA COBRANÇA DE QUALQUER TIPO SENDO EXIGIDA OU RECEBIDA PELO IRÃ DE NAVIOS QUE PASSAM PELO ESTREITO DE HORMUZ'”, escreveu Trump em postagem na Truth Social, com suas habituais letras maiúsculas.
A gradual normalização do fluxo pelo estreito faz com que os riscos associados ao choque energético aos poucos se amenizem. Em resposta, os preços do petróleo estenderam perdas pelo terceiro dia seguido, com o barril do Brent, referência internacional, cotado abaixo de US$ 75 pela primeira vez desde o início da guerra.
Com o alívio nas tensões no Oriente Médio, investidores se voltam para as taxas de juros do Brasil e dos Estados Unidos.
Na véspera, a ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central tentou explicar ao mercado o racional por trás do corte da taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, apesar da piora nas expectativas para a inflação.
A decisão, na semana passada, gerou ruído no mercado. Ainda que o corte fosse esperado, especialistas interpretaram a justificativa do Copom como sinal de maior tolerância com inflação acima da meta.
A ata, porém, não dissipou todas as dúvidas sobre a trajetória da Selic e manteve o cenário de cautela. “O documento reforçou a desancoragem adicional das expectativas de inflação, especialmente para horizontes mais longos, reconheceu balanço de riscos com assimetria para cima e não deu sinal claro para a reunião de agosto”, diz Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil.
“A leitura inicial foi de comunicação ainda confusa, mas a ausência de compromisso com novos cortes reduziu parte da pressão sobre os juros futuros, que passaram a ceder.
Investidores deram continuidade à eliminação de prêmios de risco nas curvas dos juros futuros nesta sessão. As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) afundaram mais de 0,2 ponto percentual em alguns pontos: a de janeiro de 2028, por exemplo, estava em 14,34% no final da tarde, em baixa de 0,22 ponto.
Na ponta longa, o vértice de janeiro de 2035 estava em 14,21%, em queda de 0,23 ponto. “A curva de juros perde inclinação na contramão do câmbio, com os vencimentos intermediários e longos cedendo com força em resposta à queda do petróleo e ao recuo dos treasuries [títulos ligados ao Tesouro dos EUA]”, diz Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
“O mercado segue dividido sobre o encontro de agosto, em reflexo da ambiguidade da ata do Copom. O Relatório de Política Monetária de amanhã é visto como a oportunidade do BC de esclarecer o ritmo do ciclo.”
O movimento ocorre em paralelo à queda dos rendimentos dos treasuries, que recuam quanto maior a procura por títulos do Tesouro norte-americano.
A busca acontece em meio à expectativa de que o Federal Reserve, o banco central dos EUA, eleve os juros até o final do ano. Liderada pelo novo presidente Kevin Warsh, a autoridade monetária abalou os investidores na semana passada ao sinalizar que estava inclinada a elevar as taxas para conter a ameaça inflacionária provocada pelo conflito no Oriente Médio.
Quanto maior o juro nos Estados Unidos, pior para ativos de mercados emergentes, já que a renda fixa norte-americana é considerada um investimento praticamente livre de risco e, com os Fed Funds em alta, exibe retorno atrativo.
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