BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Custou quatro eleições, mas a filha de Alberto Fujimori convenceu os peruanos, 26 anos após o país se livrar da ditadura de seu pai, de que deveria ser presidente.
Keiko Fujimori venceu o segundo turno das eleições presidenciais do Peru, no dia 7 de junho, por uma margem de quase 50 mil votos, de acordo com o Onpe (Escritório Nacional de Processos Eleitorais). Foram 50,135% dos votos na agora presidente eleita, ante 49,865% no seu adversário, Roberto Sánchez.
O resultado foi proclamado quase um mês após o primeiro turno devido à demora na apuração, à diferença ínfima entre os dois candidatos e à judicialização da contagem. Assim como Keiko, em 2021, Sánchez tentou anular milhares de votos, especialmente os do exterior, que garantiram a vitória da agora presidente eleita.
A novela não parece ter acabado. Sánchez tem convocado manifestações e, na quarta-feira (1º), apresentou um recurso à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) questionando a vitória de Keiko.
O deputado de esquerda foi o quarto político a enfrentar a populista de direita em um segundo turno -marca que rendeu a Keiko a alcunha de eterna candidata. Ela inaugurou essa tradição, agora quebrada, em 2011, quando competiu com o último líder peruano que conseguiu cumprir seu mandato, Ollanta Humala.
Naquele ano, perdeu por menos de três pontos percentuais, fenômeno que também se repetiu nas eleições posteriores. Em 2016, alcançou 49,9% dos votos, contra 50,1% de Pedro Pablo Kuczynski, o PPK; em 2021, os números se repetiram com Pedro Castillo, padrinho do derrotado deste ano.
O que sempre a deixou de fora foi o antifujimorismo, uma das principais forças políticas em um país com partidos praticamente descartáveis e um sistema político formado por instituições fracas.
O rechaço tem explicação. Fujimori governou o Peru de 1990 a 2000 com mão de ferro e se manteve no poder graças a um autogolpe em 1992 -justamente o responsável por desmantelar o sistema político da época, resultando na atual fragmentação e informalidade da política da nação.
A marca de seu regime foi o combate às guerrilhas Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Túpac Amaru, conhecidas pela violência com que atuavam, especialmente nas áreas mais pobres do país. A repressão de Fujimori, por sua vez, incluiu pelo menos dois massacres envolvendo civis. O ditador cumpria uma pena de 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção quando morreu em 2024, na casa de sua filha Keiko.
Curiosamente, a agora presidente eleita precisou abraçar o legado do pai para vencer, mostrando que o fujimorismo também é uma das correntes ideológicas mais fortes do Peru.
Sob o lema “Volta Fujimori, volta a ordem”, Keiko se colocou como uma versão atualizada de seu pai. Ajudou a agora presidente eleita a crise de segurança pela qual o país passa e que fez dezenas de milhares de peruanos saírem às ruas no ano passado, em um ciclo de protestos que acabou derrubando a então presidente Dina Boluarte.
No primeiro turno, no dia 12 de abril, ela escolheu começar o dia da votação sob o túmulo do ditador. “Eu gostaria que quem estivesse falando aqui hoje fosse meu pai”, disse ela horas depois, no típico café da manhã com eleitores e jornalistas que os candidatos fazem nos dias de votação, uma tradição iniciada por Fujimori em 1990.
Na véspera do primeiro turno, afirmou ao Canal N que “são os peruanos que mais desejam uma política linha dura” como a que seu pai implementou. “O tempo está colocando as coisas em seu lugar e, hoje, quando o Peru sangra pelos delinquentes e os extorsionistas, o que pedem é um Fujimori. Aqui estou!”, continuou, no mesmo tom, à agência de notícias AFP.
As propostas mais específicas envolvem resgatar a política de tribunais com “juízes sem rosto”, medida que garante anonimato a magistrados em certos tipos de julgamento e que foi amplamente utilizada por seu pai nos anos de 1990. A ferramenta, porém, é criticada por organizações de direitos humanos por ter lavado à prisão de centenas de inocentes. Ela prometeu ainda construir quatro megaprisões de segurança máxima e, assim como seu pai, sair da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Planos menos extravagantes na área de segurança envolvem fortalecer as polícias com novas câmeras e viaturas e criar centros de comando interconectados entre todas as regiões do país que atuariam com a ajuda de inteligência artificial para previnir crimes.
Keiko também absorveu a agenda anti-imigração, repaginando o radicalismo de seu pai para a ultradireita do século 21. “Expulsaremos os cidadãos sem documentos”, afirmou ela. A comunidade venezuelana no Peru, a mais numerosa do país, conta com 1,6 milhão de pessoas -14% sem residência autorizada.
No campo da economia, o pilar da sua campanha foi a defesa do legado econômico do seu pai, que estabilizou a economia do Peru por meio da independência do Banco Central e de um marco legal rígido que garante o equilíbrio das contas públicas.
Nesse sentido, fez questão de marcar a diferença com Sánchez, embora o candidato derrotado tenha moderado o discurso econômico quando passou para o segundo turno. A presidente quer reduzir o déficit fiscal peruano para 1% do PIB ate 2031 -o de 2025 já havia sido 2,2%, um dos mais baixos da América Latina.
Para resolver a alta taxa de informalidade, que passa do 70%, a política quer atrair entre US$ 5 e 7 bilhões de investimentos até 2031 e criar 3 milhões de empregos.
Ajudou Keiko o fato de que seu adversário tinha duas tarefas, não uma, como ela: tornar-se conhecido pelos eleitores e convencê-los de que era a melhor opção. Isso tendo como padrinho Castillo, atualmente preso por tentar um autogolpe um ano e meio após assumir o poder.
Durante os 15 anos em que não ganhou as eleições, Keiko se ocupou de dominar o Congresso, órgão que ganhou protagonismo desproporcional entre os Poderes do Peru. Um dos principais responsáveis pela instabilidade política que o país atravessa, o Legislativo foi responsável por destituir quatro presidentes nos últimos dez anos.
Desde 2011, o Força Popular é pelo menos a segunda maior bancada do Congresso, chegando a impressionantes 73 assentos de 130 no pleito de 2016. Agora, Keiko passa para a outra parte do balcão, mas em uma situação um pouco mais favorável do que seus antecessores -seu partido domina o Congresso com 41 dos 130 assentos da Câmara dos Deputados e 22 de 60 no Senado, recriado em 2024.
O grau de domínio do Força Popular sobre as instituições torna a situação da oposição delicada. Mesmo assim, especialistas afirmam que ela ainda precisará negociar, agora com duas Casas, para colocar seu governo em marcha.
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