Destaques do Dia Maringa Policia

Igreja Presbiteriana de Pinheiros fecha acordo após acusação de assédio e ‘abuso espiritual’

PT realiza encontro com evangélicos e deve divulgar carta com diretrizes partidárias

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O reverendo Arival Dias Casimiro, pastor titular da IPP (Igreja Presbiteriana de Pinheiros), foi alvo de uma ação trabalhista movida por uma ex-funcionária da Junta Missionária de Pinheiros, braço da denominação. Ela o acusou de assédio e abuso espiritual, com mensagens que a própria igreja reconhece como “inoportunas, inadequadas e infelizes”.

Elas são assim descritas em “nota de esclarecimento” enviada à membresia da IPP e encaminhada à Folha por Casimiro, após o jornal questioná-lo sobre o desfecho judicial. O processo, aberto em maio de 2025, foi encerrado com um acordo entre as partes.

A IPP reúne nomes graúdos da liderança presbiteriana, como Hernandes Dias Lopes e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça. Casimiro é o pastor titular da casa.

A mulher que o acusou de assédio mencionou à Justiça trabalhista abordagens presenciais e tentativas virtuais de aproximação. Segundo ela, Casimiro ia diariamente até sua mesa de trabalho para abraçá-la, acompanhado de elogios e piadas em excesso.

Também fazia comentários sobre sua aparência, “sugerindo repetidamente que eu usasse maquiagem e roupas mais curtas para chamar mais atenção”, segundo depoimento reproduzido na ação. Teria chegado a afirmar, na frente de outros funcionários, que “ainda se casaria” com ela.

A mulher, que ocupava o cargo de auxiliar administrativa e também é presbiteriana, lista vários colegas de trabalho que teriam testemunhado as investidas.

Diz ainda que, entre 2022 e 2024, recebeu mensagens no WhatsApp que começaram com conteúdos relacionados ao ofício, mas depois evoluíram “para perguntas pessoais que me deixavam muito desconfortável, pela sua posição enquanto pastor e enquanto meu superior no trabalho”.

O conteúdo, de acordo com o processo, incluía frases como “se desejo você?” (após Casimiro comentar que a esposa não estava em casa) e “você mexe comigo”.

Há prints de algumas dessas trocas. Numa delas, ela comunica ao reverendo sobre lançamentos financeiros previstos. Ele logo muda de assunto e diz que há “coisas que não consegue falar por aqui, só pessoalmente e no privado”, pedindo uma conversa.

Ela pergunta do que se trata, e Casimiro responde: “O que sinto por você”, mas depois manda um “esquece”. A subordinada pergunta se ele quer falar por ligação e diz que não está entendendo o motivo da conversa. Ele sugere falar pessoalmente.

A funcionária diz que é “grata pelo cuidado e parceria”, mas que não está entendendo sobre o que ele quer falar. Casimiro recua de novo: “Esquece o que gostaria de conversar. O que você precisar de mim estou à disposição. Siga adiante com fé e coragem”.

Ela agradece, e ele diz “amém”.

Não para por aí. O líder religioso afirma estar à disposição para uma conversa particular. A mulher responde que as mensagens a deixam “um pouco desconfortável” e que prefere não recebê-las.

O processo descreve uma reunião para tratar do comportamento de Casimiro. Ela foi realizada em 15 de agosto de 2024, no gabinete pastoral, com a presença da ex-funcionária, de sua superior imediata, de um presbítero e do reverendo.

Casimiro, conforme relatado por ela, pede desculpas, afirmando que “caiu num laço do inimigo”. Justificou ter “invertido os papéis”, declarando que a enxergava como filha e desejava ajudá-la financeiramente na aquisição de um apartamento. Ele a abraçou e disse esperar que ela permanecesse em seu cargo na Junta Missionária.

Ela pediu para ser demitida sem justa causa, para receber a multa rescisória e direitos trabalhistas devidos, o que foi atendido. Afirma à Justiça ter percebido “que as mensagens, assim como o comportamento inadequado do pastor presencialmente, consistiam não só em assédio, mas também em abuso espiritual”.

A IPP disse, na nota endereçada a seus membros, que o caso foi tratado num tribunal eclesiástico. Casimiro reconheceu a inconveniência das mensagens enviadas e pediu perdão à ex-funcionária. Aplicou-se disciplina eclesiástica prevista nas normas da igreja, que o documento não especifica quais são, e o procedimento foi encerrado. Ele continua como titular da IPP.

“Por respeito à verdade e à privacidade dos irmãos envolvidos, é importante que fatos, decisões e responsabilidades não sejam ampliados ou modificados por relatos posteriores, comentários, interpretações pessoais ou informações transmitidas fora do seu contexto”, diz a nota redigida pela IPP.

Semanas antes, a cúpula da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil), à qual a igreja em Pinheiros está subordinada, aprovou uma resolução contra a “maledicência digital”. O termo resume algo que os líderes presbiterianos veem como nefasto: o avanço de fofocas e “denúncias vazias” que coloquem a igreja em evidência. Há sanções previstas para quem levar “supostos erros de lideranças ao ‘tribunal da internet'”.

A IPP também enviou ao jornal uma nota elaborada por uma assessoria de imprensa convocada para lidar com esse episódio. Nela, confirma que houve “acordo homologado pela Justiça do Trabalho, sem sentença de mérito e sem reconhecimento de prática de assédio”.

Reforça reconhecer mensagens relacionadas ao episódio, descrevendo-as como inoportunas, e diz que Casimiro “não fará manifestação individual” sobre o caso.

Leia Também: Fisiculturista acusado de tentar matar namorada vai a júri popular em SP