SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O papa Leão 14 afirmou nesta segunda-feira (28) que a associação entre posições da extrema direita e determinadas expressões religiosas na Alemanha “não é uma expressão autêntica do cristianismo”.
O pontífice respondia a uma questão sobre o declínio no número de fiéis da Igreja na Alemanha. Ele afirmou que gostaria de visitar o país e ainda não tem uma data para fazê-lo, mas que seria interessante “estudar e analisar” se existe uma relação entre a crise religiosa e o aumento da extrema-direita.
“Seria interessante estudar e analisar se existe, e de que maneira poderia existir, uma relação, por exemplo, entre o crescimento desses grupos de extrema direita”, afirmou, ao comentar o cenário alemão.
O papa disse que pretende manter o diálogo com lideranças católicas e protestantes alemãs. Segundo ele, lideranças das duas igrejas já se manifestaram contra a combinação de posições extremistas com determinadas formas de religião.
“Os valores do Evangelho não dizem respeito ao ódio e à divisão, mas à compreensão, à compaixão e ao acompanhamento”, disse. Leão 14 defendeu que a instituição incentive a participação política em favor do bem comum, para que os cidadãos façam escolhas conscientes e rejeitem ideias extremistas, cujos danos, afirmou, talvez ainda não sejam plenamente conhecidos.
A extrema direita alemã tem como principal expressão eleitoral a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido nacionalista e anti-imigração que ficou em segundo lugar nas eleições federais de 2025, com 20,8% dos votos.
Em setembro de 2026, venceu as eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, com cerca de 44% dos votos, e ficou em primeiro lugar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. A sigla é monitorada pela inteligência alemã por suspeitas de extremismo de direita.
Apesar do avanço, a AfD segue isolada dos principais partidos, que mantêm o compromisso de não formar alianças com a legenda. O crescimento eleitoral reacendeu o debate sobre imigração, nacionalismo e a relação entre extremismo e religião, tema abordado pelo papa Leão 14 ao comentar a situação alemã.
O papa deu a declaração durante voo de retorno da França ao Vaticano, onde havia feito visita oficial de quatro dias. Em Metz, cidade próxima à fronteira alemã e ligada à trajetória de Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia, o líder religioso apresentou sua visão sobre os desafios políticos do continente, em um momento de avanço de partidos de extrema direita na região.
Ele defendeu os valores fundadores da UE, como Estado de Direito e igualdade entre as pessoas, sem distinção de raça, cor, classe ou profissão.
No mesmo discurso, Leão 14 abordou a guerra na Ucrânia e afirmou que os negociadores precisam estar dispostos a abrir mão de algumas posições para alcançar a paz.
Sem mencionar diretamente os países envolvidos, classificou o conflito como um “novo massacre sem sentido”, que provoca mortes de civis diariamente. O pontífice evocou um apelo semelhante feito em 1917 pelo papa Bento 15, durante a Primeira Guerra Mundial, e pediu coragem nas negociações.
Leão 14 também voltou a criticar o aumento dos gastos militares europeus, que registraram no ano passado o maior crescimento desde o fim da Guerra Fria. “Devemos nos precaver contra a ilusão de que o rearmamento seja a resposta”, disse. Ele questionou se os países estão fazendo esforços para promover a paz mundial ou apenas se preparando para conflitos futuros.
A imigração foi outro tema do discurso. Ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, o papa pediu que os países europeus ofereçam aos imigrantes oportunidades de integração e os acolham como membros da família. Também defendeu a criação de vias legais e seguras para a migração e a cooperação internacional no combate ao tráfico de pessoas.
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