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PF planeja criar divisão de combate a bets ilegais

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A Polícia Federal vai reestruturar uma de suas diretorias com o objetivo de criar uma divisão dedicada à repressão a apostas ilegais no país. Segundo integrantes do governo, a reformulação já recebeu o sinal verde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O novo desenho ainda prevê estruturas específicas para combater a manipulação de resultados esportivos e investigar o uso de ativos virtuais (como criptomoedas) em práticas de lavagem de dinheiro.

O pedido consta em documento interno da PF obtido pela reportagem e formalizado pelo diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública na sexta-feira (25), no mesmo dia em que Lula assinou uma MP (medida provisória) para tornar ilegal a exploração das apostas de quota fixa, conhecidas como bets.

Segundo integrantes do governo, a mudança já vinha sendo discutida e foi acertada com Lula na sexta. O pedido agora tramita formalmente no MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos). Devido à criação de novas estruturas, a proposta tem impacto financeiro mensal estimado em R$ 44,9 mil.

A repressão das apostas ilegais é uma das principais preocupações do governo Lula após o presidente decidir banir de vez as bets. O chefe do Executivo chegou a analisar uma proposta intermediária, que previa proibição apenas dos cassinos online (conhecidos também como tigrinho) e adoção de regras mais duras de publicidade para as casas de apostas.

Mas Lula preferiu levar a cabo a medida mais drástica, com o veto a todas as modalidades de bets e cassinos online. Essa era considerada por auxiliares do presidente uma decisão de alto risco, uma vez que eventual falha na repressão às plataformas ilegais poderia deixar o governo desmoralizado perante à população. Por isso, o Executivo vê necessidade de reforçar as estruturas de fiscalização.

Autorizadas no governo Michel Temer (2016-2018), as apostas online passaram pelo governo Jair Bolsonaro (2019-2022) sem regras. Em 2024, o governo Lula decidiu regulamentar a atividade, passando a cobrar impostos, com o argumento de estabelecer regras para as empresas do setor.

Em maio deste ano, às vésperas da Copa do Mundo, a PF chegou a criar um grupo para investigar casos de manipulação de resultados esportivos, fraudes em apostas e combater as bets ilegais. A medida foi adotada por meio de boletim interno da corporação e seria temporária, com duração prevista de um ano.

A nova estrutura idealizada pela PF representará uma reformulação mais duradoura, além de sinalizar maior grau de prioridade a essa atuação.

O documento prevê a criação da chamada Coordenação-Geral de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos (CGLA), vinculada à Dicor (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção) -setor da PF responsável por investigações envolvendo o Banco Master e as fraudes no INSS.

Dentro da CGLA, o organograma prevê a criação de uma Coordenação de Inteligência Financeira e Lavagem de Dinheiro, que abrigaria, entre outras estruturas, um serviço específico para a investigação de crimes de lavagem com ativos virtuais.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, a PF apreendeu R$ 71 milhões em criptomoedas usadas pelo crime em 2025, ante R$ 11,1 milhões no ano anterior, mas quadrilhas movimentam dezenas de bilhões de reais.

O documento propõe ainda a criação da Coordenação de Recuperação de Ativos, também vinculada à CGLA. Essa estrutura ficaria voltada à investigação patrimonial e à gestão, alienação e destinação dos ativos ligados a crimes sob investigação.

Hoje, tanto a repressão à lavagem de dinheiro quanto a recuperação de ativos estão abrigadas em estruturas com status inferiores ao de coordenação. Por isso, se o desenho proposto pela PF for aprovado pelo governo, essas frentes ganhariam maior relevância dentro da organização.

Pelo plano, também seriam criadas a Divisão de Repressão a Apostas Ilegais e a Divisão de Repressão à Manipulação de Resultados Esportivos. Ainda que com status menor do que as coordenações, as divisões seriam braços da PF dedicados às apurações nessas frentes.

O desenho ainda prevê uma Divisão de Doutrina e Capacitação, além de um setor de apoio administrativo e um núcleo de gestão estratégica. Ao todo, seriam 17 novas unidades administrativas, com o aproveitamento de três estruturas já existentes e hoje ligadas à chamada CGRC (Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro).

No documento enviado ao Ministério da Justiça, Andrei afirmou que a reorganização tem como objetivo “fortalecer a capacidade institucional da Polícia Federal para o enfrentamento econômico ao crime organizado, mediante a integração, em estrutura central especializada, da repressão à lavagem de dinheiro, da inteligência financeira, da investigação patrimonial e da recuperação de ativos, além do enfrentamento das apostas ilegais e da manipulação de resultados esportivos”.

Segundo a PF, a estrutura reunirá as áreas sob uma direção única, “estruturando fluxos capazes de aproximar a produção de subsídios financeiros da identificação, localização, constrição, administração, alienação e destinação de bens”.

“Busca-se, com isso, favorecer a identificação tempestiva de bens, a instrução de medidas assecuratórias [retenção de bens, direitos e valores oriundos de crimes], o acompanhamento das etapas posteriores à constrição e a cooperação necessária à localização e recuperação de ativos no Brasil e no exterior.”

Na terça-feira (29), o Ministério da Justiça afirmou que solicitou o bloqueio de 5.209 sites de apostas que passaram a operar de forma ilegal no país após a MP assinada por Lula.

A pasta disse ainda que a Polícia Federal investiga há três anos esquemas relacionados a apostas ilegais e à manipulação de resultados esportivos.

De março de 2023 a agosto de 2026, a corporação deflagrou 12 operações ligadas a essas práticas, que resultaram na expedição de ao menos 73 mandados de busca e apreensão e 15 mandados de prisão. As investigações alcançaram Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraíba e Distrito Federal.

No período, a PF pediu à Justiça o sequestro de R$ 4,17 bilhões em bens e valores relacionados às investigações. A corporação também participa de uma força-tarefa da Interpol voltada ao combate à manipulação de resultados esportivos, por meio da qual mantém intercâmbio de informações e de metodologias de investigação.

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