RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A proporção de pessoas consideradas pobres na população das metrópoles brasileiras caiu de 19,5% em 2024 para 18,4% em 2025.
Com o resultado, o indicador, conhecido como taxa de pobreza, renovou pelo terceiro ano consecutivo o menor nível de uma série histórica iniciada em 2012.
As conclusões são do 17º boletim Desigualdade nas Metrópoles, obtido com exclusividade pela Folha de S.Paulo. As informações analisadas abrangem as 22 principais regiões metropolitanas do país.
A publicação é produzida pelo centro de estudos PUC-RS Data Social em parceria com o Observatório das Metrópoles, ligado ao Ippur (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Segundo o boletim, a renda aumentou para os diferentes grupos da população em 2025, incluindo os mais pobres, o que explica a nova redução da pobreza.
A alta do rendimento dessa camada, contudo, foi menor do que a observada no outro extremo da população, composto pelos mais ricos.
Assim, a desigualdade na distribuição de renda, medida pelo índice de Gini, avançou no ano passado.
O Gini das metrópoles subiu 1,4%, ao sair da mínima de 0,533 em 2024 para o patamar de 0,541 em 2025. O resultado mais recente é o quarto menor da série iniciada em 2012.
A escala do Gini varia de 0 (igualdade máxima) a 1 (desigualdade máxima). Quanto mais alto for o resultado, maior é a diferença entre os extremos da população.
Os resultados do boletim são calculados a partir de um módulo anual da Pnad Contínua, uma das principais pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O IBGE publicou os dados em maio, com foco no Brasil. Conforme o instituto, a desigualdade também avançou no país na passagem de 2024 para 2025, apesar de a renda ter crescido para ricos e pobres.
O Gini nacional (0,511) é inferior ao calculado pelo boletim para as metrópoles (0,541).
“A renda continuou aumentando, mas a desigualdade subiu um pouco. Quer dizer, o volume de recursos aumentou, mas a gente passou a distribuí-los [de modo] um pouco pior, de maneira mais desigual”, afirma André Salata, pesquisador do PUC-RS Data Social.
Segundo ele, índices de Gini acima de 0,5 -casos do país e das regiões metropolitanas- sinalizam disparidades que seguem muito altas. O avanço registrado no ano passado, porém, pode ser considerado “discreto”, pondera Salata.
Na média, a renda domiciliar per capita (por pessoa) alcançou R$ 2.766 por mês nas metrópoles em 2025. O valor cresceu 6,8% em relação a 2024, renovando o recorde da série histórica.
O cálculo do indicador considera os recursos obtidos com o trabalho e as outras fontes. As outras fontes incluem, por exemplo, os benefícios sociais como o Bolsa Família, as aposentadorias e as pensões, o aluguel e as aplicações financeiras.
Entre os 40% mais pobres, a renda média per capita subiu 4,2% no ano passado, para R$ 734 por mês. Entre os 10% mais ricos, o crescimento foi de 9,1%, para R$ 11.837 por mês.
Para Marcelo Ribeiro, pesquisador do Observatório das Metrópoles e professor do Ippur, os dados sinalizam que a faixa de renda mais alta se beneficiou mais da recuperação do mercado de trabalho em 2025.
O rendimento desse grupo também pode ter sido incrementado pelos ganhos com aplicações financeiras em um cenário de juros elevados no país. “É um aspecto relevante que precisa ser considerado”, diz Ribeiro.
No caso dos mais pobres, o freio na expansão de benefícios sociais pode ter contido o avanço da renda em 2025, conforme Salata. Apesar disso, ele afirma que o cenário ainda está longe de ser negativo.
METRÓPOLES TÊM 15,2 MILHÕES DE PESSOAS POBRES
Em termos absolutos, a taxa de pobreza de 18,4%, verificada no ano passado, significa que 15,2 milhões de pessoas eram consideradas pobres nas regiões metropolitanas.
Esse número é o menor da série, mas ainda supera a população inteira da cidade de São Paulo (11,9 milhões).
O grupo em situação de pobreza nas metrópoles teve baixa de 10,4 milhões de pessoas na comparação com 2021 (25,6 milhões), na pandemia. Naquele ano, o contingente bateu recorde.
Já a taxa de extrema pobreza das regiões metropolitanas recuou de 3,4% em 2024 para 3,2% em 2025. Um patamar inferior ao do ano passado só foi encontrado em 2013 e 2014, quando a proporção atingiu a mínima de 3,1%.
A taxa de 3,2% significa que as metrópoles abrigavam 2,6 milhões de pessoas extremamente pobres em 2025.
Esse número supera o total de habitantes de uma capital como Belo Horizonte (2,4 milhões) ou Manaus (2,3 milhões), mas é menos da metade do registrado em 2021, quando houve a máxima do boletim (5,6 milhões).
O estudo segue recomendações do Banco Mundial para a definição das linhas de pobreza e extrema pobreza. As medidas levam em consideração parâmetros de PPC (paridade de poder de compra).
Em valores mensais de 2025, a linha de pobreza foi de aproximadamente R$ 729, enquanto a de extrema pobreza ficou em cerca de R$ 229.
Moradores de domicílios com renda per capita abaixo desses valores foram classificados como pobres ou extremamente pobres.
No ano passado, os 10% mais ricos ganharam o equivalente a 16,1 vezes o rendimento dos 40% mais pobres nas metrópoles (R$ 11.837 e R$ 734, respectivamente). O indicador subiu em relação a 2024, período da mínima da série (15,4 vezes).
DADOS MOSTRAM DIFERENÇAS ENTRE METRÓPOLES
Juciano Rodrigues, pesquisador do Observatório das Metrópoles e professor do Ippur, chama a atenção para as diferenças existentes entre as regiões metropolitanas.
Em 2025, Brasília teve a maior desigualdade medida pelo Gini (0,570), enquanto Cuiabá mostrou a menor (0,459).
A capital federal é conhecida por reunir parte da elite do funcionalismo, com salários mais elevados, em contraste com outras ocupações.
Isso também puxa a renda de Brasília para cima na média. O valor local foi R$ 4.401 por pessoa em 2025, o maior do país.
Equivale a 2,7 vezes o rendimento encontrado na Grande São Luís, que apresentou o menor indicador da pesquisa (R$ 1.616).
A taxa de pobreza das regiões metropolitanas em 2025 variou de 7,7% em Florianópolis a 34,1% em Fortaleza.
Na Grande São Paulo, a proporção foi de 13,1%, abaixo da média das metrópoles (18,4%).
Quando a análise considera a taxa de extrema pobreza no ano passado, o percentual variou de 1,5% em Goiânia a 6,6% em São Luís.
Em São Paulo, a proporção foi de 2,6%, também abaixo da média das metrópoles (3,2%).
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