SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – A Venezuela foi atingida por dois terremotos seguidos, que deixaram 164 pessoas mortas e quase mil feridos. O evento, um dos mais catastróficos da América Latina nas últimas décadas, é conhecido como terremoto duplo, uma forma incomum de sequência sísmica.
O primeiro tremor, de magnitude 7,2, atingiu San Felipe, a oeste de Caracas. Dados do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos) sugerem que ele pode ter aumentado a tensão em outra falha geológica próxima, a pouco mais de 5 km de distância.
Isso desencadeou um segundo terremoto de magnitude 7,5, apenas 39 segundos depois. O evento ocorreu a uma profundidade relativamente rasa e foi sentido até mesmo no norte do Brasil.
O primeiro abalo já havia enfraquecido estruturas e comprometido fundações. Já o segundo impacto, mais intenso, provocou desabamentos imediatos, sobretudo na capital, Caracas.
Vários países já se prontificaram a ajudar nas operações de busca e resgate na Venezuela e anunciaram o envio de equipes especializadas, incluindo o Brasil. O presidente Lula solicitou ao Ministério das Relações Exteriores que consulte a embaixada venezuelana para definir a melhor forma de assistência.
É NORMAL DOIS TERREMOTOS SEGUIDOS?
Segundo o USGS, é possível que dois terremotos de magnitudes semelhantes ocorram em uma mesma sequência e em um curto intervalo de tempo. Esse fenômeno é conhecido pelos sismólogos como “doublet earthquake” (terremoto duplo).
O terremoto duplo acontece quando a ruptura de uma falha redistribui as tensões acumuladas na crosta terrestre. Assim, pode transferir essa pressão para uma falha próxima e levá-la ao ponto de ruptura.
Quando ocorre um terremoto, ele libera energia na forma de ondas sísmicas que se propagam pela Terra. Ao atingir outras falhas geológicas, essas ondas podem fazer as rochas vibrarem e alterar temporariamente o estado de tensão na região.
Se uma falha já estiver muito próxima do seu limite de ruptura, esse aumento de estresse pode ser suficiente para desencadear um novo terremoto. “A energia das ondas sísmicas que passam pode causar um novo terremoto, geralmente em locais já vulneráveis e propensos a terremotos frequentes”, destaca o USGS.
Segundo o geólogo Mark Quigley, ouvido pelo Wall Street Journal, o caso venezuelano ocorreu em uma região onde as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul interagem. Os dois terremotos foram relativamente rasos e se originaram de falhas diferentes, o que costuma aumentar a intensidade dos tremores sentidos na superfície e o potencial de destruição.
Eventos desse tipo são raros. Estimativas indicam que cerca de 5% dos grandes terremotos podem apresentar esse padrão, segundo o USGS.
Antes do caso da Venezuela, exemplos recentes incluem um evento em 2023 na Turquia e Síria. Outros casos ocorreram na Indonésia, em 2012, e no Chile, em 2010, além de registros na Califórnia, em 1992.
Diferença entre terremoto duplo e réplica
A réplica (aftershock) ocorre após o terremoto principal (mainshock) e, em geral, é menor do que ele. Pode acontecer de imediato ou até anos depois, dependendo da região.
Esse processo faz parte do reajuste natural da crosta terrestre após uma grande ruptura. Quando uma falha geológica se rompe, as rochas ao redor ficam instáveis e sob novas tensões, gerando uma sequência de tremores menores chamados réplicas.
A frequência e a duração das réplicas dependem da magnitude do terremoto principal. Quanto maior ele for, mais longa e intensa tende a ser essa sequência. Embora menores, ainda podem causar novos desabamentos em estruturas já fragilizadas.
Em resumo, as réplicas são tremores menores que fazem parte do ajuste da crosta terrestre após um grande terremoto. Já o terremoto duplo é um fenômeno em que dois abalos de magnitude semelhante ocorrem em sequência, geralmente porque a ruptura de uma falha desencadeia a ruptura de outra próxima.
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