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Torço para que não haja caos institucional se Flávio vencer, diz Kassab

Torço para que não haja caos institucional se Flávio vencer, diz Kassab

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O presidente do PSD, Gilberto Kassab, afirma torcer para que não haja “caos institucional” na relação entre Executivo e Judiciário caso Flávio Bolsonaro (PL) vença Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial.

Ressalvando não acreditar que isso vá ocorrer, Kassab reconhece a situação conflituosa colocada pela eleição de uma bancada bolsonarista forte no Senado, que sinaliza buscar o impedimento de ministros do Supremo. “Impeachment não pode ser bandeira”, afirmou.

Nesta entrevista por telefone, ele admitiu que o PL tolheu o plano de expansão do PSD neste ano, mas rejeitou a ideia de derrota dado que o partido manteve boa musculatura eleitoral.

Disse não se arrepender de ter lançado Ronaldo Caiado, que ficou com 2,18% dos votos válidos no primeiro turno e de quem foi vice. Fez 43 deputados (tinha 48) e terá 5 senadores (tinha 14). Ganhou 4 governos estaduais (eram 6) e pode levar o quinto no Amazonas.

Como seria previsível, manteve as opções abertas e disse que apoiará iniciativas boas de qualquer governo. Evitou falar em cargos -o PSD tem três ministérios de Lula, mas Kassab sustenta que sua posição é de independência e quer continuar assim.

Ele evitou falar do futuro de Tarcísio de Freitas, governador reeleito de São Paulo, de quem é apoiador desde 2022 e foi secretário. Negou estar distante dele, como relatam aliados de ambos. Defendeu fim da reeleição e o voto distrital misto, no qual o Legislativo é ocupado por candidatos escolhidos por região e por voto em partido ou lista.

PERGUNTA – O que aconteceu com a sua bússola desta vez?

GILBERTO KASSAB – Não fomos bem no Senado. Mas se você olha as tabelas de prefeitos, deputados, governadores, a evolução, estamos no alto em todas. O único partido que cresceu de 2022 a 2026, fora o PL, foi o PSD.

P – Mas sua expectativa no começo do ano era de crescimento, e não houve.

GK – Nossa expectativa era de fazer uns 70 deputados federais, fizemos 43. É fácil de explicar: o PL cresceu muito, fez quase 130 deputados, e para isso levou uns 15 de cada um dos partidos grandes. Levou do nosso. Mas nós crescemos em números de votos.

P – E a candidatura presidencial, foi um erro?

GK – Foi um acerto. Desde o primeiro momento dizíamos que havia unidade no partido para apoiar o Tarcísio, caso ele fosse candidato. Sem ele, lançaríamos um candidato próprio para ter nossa identidade, reafirmar o perfil de centro. Até do ponto de vista pessoal foi interessante, eu gosto de disputar eleição.

P – O sr. não acha que Caiado foi bastante enfático no seu apoio ao Flávio? Isso não gera um ruído com a ideia de independência?

GK – Não, nós definimos ao fim do primeiro turno liberar cada filiado. Então, não tem problema. Assim como o Caiado apoia com bastante intensidade o Flávio, o [senador] Otto Alencar, o [deputado] Antonio Brito, o [ex-prefeito do Rio] Eduardo Paes apoiam o Lula. Nenhuma crise.

P – E o Kassab?

GK – Eu estou vestido de presidente do partido.

P – Em São Paulo, vocês apoiaram o Tarcísio, mas o PSD acabou saindo da chapa. E ele ganhou bem, 60% dos votos. Como fica daqui para frente, para 2030, o sr. pretende uma reaproximação?

GK – Não precisa haver reaproximação porque estamos bem próximos. Mais próximo é impossível. Em São Paulo, o foco agora são as eleições municipais.

P – Como o sr. vê as críticas de aliados paulistas à expansão agressiva do PSD no estado?

GK – É natural. A gente interpreta naturalmente como reconhecimento do nosso crescimento.

P – O que aconteceu no Rio? Paes era visto como favorito e perdeu para o Douglas Ruas (PL).

GK – Eu vejo com muita frustração. O Rio é um estado com índices muito ruins em vários aspectos. O Paes seria uma renovação e o vencedor não é uma renovação. Lamento muito, mas quero registrar que o atual governador [interino, o desembargador Ricardo Couto] talvez seja a mais bela surpresa da administração pública brasileira dos últimos anos. Merece aplausos.

P – E aí, o sr. já o convidou para o PSD?

GK – Já está convidado [risos]. Mas você me deu uma boa ideia.

P – Como o sr. lê o primeiro turno? Houve a repetição da polarização no nível presidencial, mas uma expansão da direita no geral.

GK – Eu vejo a esquerda frágil, ela diminui, tem poucos governos estaduais, um quinto do Congresso contando partidos de centro-esquerda como PSB e PDT. Eu vejo um país polarizado e o PSD não quis entrar nisso. Mas os números são inquestionáveis, e o eleitor se aproximou da direita. Foi uma derrota da esquerda.

P – A figura do Lula suplanta a da esquerda.

GK – Sim, exatamente. Ele continua muito forte, ele ficou a dois pontos do Flávio [no primeiro turno] e agora está a quatro, um empate técnico [no limite da margem de erro do Datafolha, mas improvável].

P – Se o presidente não se reeleger, o sr. antevê a esquerda num exílio?

GK – Ah, surgem novos líderes, né? É natural. O Lula é um líder muito forte. Ele parando agora ou daqui a quatro anos, é natural que surjam novos líderes.

P – Alguém se destaca? Quando você olha São Paulo, a impressão é que o PSOL virou o novo PT na eleição legislativa.

GK – Não, tem de esperar o resultado do segundo turno para entender o que pode acontecer. O Lula disputa possivelmente sua última eleição. Não estou dizendo que ele vai se aposentar, hoje as pessoas vivem até os cem anos, mas o tempo político dele está se esgotando, né? O [ministro Guilherme] Boulos é um sinal disso, uma nova liderança que não é do PT, mas do PSOL.

P – Candidatos mais radicais à direita e à esquerda se elegeram ao Congresso, isso é uma tendência?

GK – Não se questiona resultado de eleição. Mas acho que o país estará mais bem representado com o voto distrital misto. Hoje você tem diversas regiões que tinham bons candidatos e não terão representação.

P – Havia um temor de que o controle das verbas federais por emendas parlamentares gerasse uma renovação mais baixa no Congresso, mas o índice ficou em linha com outros anos.

GK – Se não fossem as emendas, seria muito maior. Eu sou radicalmente contra elas. Não faz sentido termos R$ 70 bilhões por ano colocados de forma eleitoreira por parlamentares.

P – Em poucos dias depois do primeiro turno, Flávio começou a falar sobre mudanças radicais, envolvendo a Constituição. Até pelo histórico da família, apesar de legítimo pode soar golpista, não?

GK – Eu acho que, seja ele ou seja o Lula, eles precisam realmente mostrar aquilo que estão pensando. Ele tem legitimidade para apresentar suas propostas, mais do que isso, tem o dever. Nada me assusta, até porque tudo está sendo apresentado sem aprofundamento.

P – Pode ser algo só para manter a tropa animada ou o sr. prevê um cenário mais conflituoso caso Flávio vença?

GK – Eu acho que ele tem sinalizado os temas em que quer mexer. Não tenho preocupação, ele conquistou esse espaço. Até me agrada que ele esteja falando mais.

P – Ele disse que o país tem uma democracia falha.

GK – Ele falou em redemocratizar o país. De repente para ele isso é ter idade mínima de 60 anos para o Supremo, mandato de dez anos, que são coisas que eu defendo. E uma quarentena, dois anos sem assinar parecer e oito anos sem se candidatar.

P – O Supremo esteve no centro da campanha. O sr. antevê algum risco de crise institucional caso o Flávio seja eleito?

GK – Vou falar mais. Eu torço para não haver nenhum caos institucional, né? Eu torço pela estabilidade das instituições, das relações. Eu confio muito na estabilidade da nossa democracia, não acho que [o caos] vai acontecer. Eu sei do que você tá falando. Quer dizer, como vamos sair dessa tensão que existe hoje em relação às denúncias nos três Poderes? Minha resposta é instituições funcionando.

P – E o ímpeto da bancada eleita no Senado para impedir ministros do STF?

GK – Eu acho que impeachment não pode ser uma bandeira. Bandeira deve ser a postura correta, a fiscalização, a investigação, a transparência.

P – Os quatro anos de Bolsonaro foram turbulentos. Seria diferente com o Flávio?

GK – Cada um tem seu estilo. Acho que o que vai diferenciar se o Lula perder e o Flávio ganhar é o Congresso, acho que será mais favorável [a Flávio do que foi ao pai].

P – Lula ou Flávio já procuraram o sr.?

GK – Eu sou presidente de partido que está crescendo, então falo com pessoas dentro do PSD que estão com o Lula e com o Flávio. Não falei com eles pessoalmente. Estou feliz porque todos compreendem minha posição, a qual foi a de liberar apoios. Estou dando prioridade ao avanço do partido e à sua unidade. Em São Paulo, meu estado, há uma posição majoritária [pró-Flávio] porque estão todos com o Tarcísio.

P – O Tarcísio sai forte desta eleição, é nome certo no debate de 2030. Quando o Flávio propõe acabar com a reeleição, está só acenando ao governador ou o sr. acha que é sincero? Se não acabar, o sr. prevê uma disputa entre eles?

GK – Acho que não é da cultura brasileira falar sobre sucessor de eleito antes das eleições. O fim da reeleição é uma aspiração de parte importante da sociedade.

P – O PSD tem integrantes no ministério de Lula. Há algum óbice a participar de um governo Flávio?

GK – No governo Lula, temos uma posição de independência. Alguns dos nossos apoiaram o Lula em 2022. Se o Flávio ganhar, o partido dele não tem 308 votos [na Câmara] para mudar a Constituição. Se o Lula ganhar, a frente de esquerda tem 109 votos.

É legítimo o vencedor procurar o Congresso para tentar montar uma base. Mas vamos esperar. O que me agrada, em princípio, seja Lula ou Flávio, é o PSD ficar na posição de independência, ajudando os bons projetos que o governo possa ter.

P – Como o sr. vê as propostas econômicas dos candidatos?

GK – Eles não conseguiram dar resposta sobre equilíbrio fiscal, é uma prioridade, mas temos de deixar para o fim da fila aqueles que são mais necessitados. Vejo aí alguns falando [na equipe de Flávio] em pegar aposentado, pensionista, não tem sentido começar por aí.

RAIO-X | GILBERTO KASSAB, 66

Economista e engenheiro civil, Kassab foi secretário de Planejamento de São Paulo (1997-8, governo Celso Pitta, PPB e PTN), deputado federal (1999-2005), vice-prefeito (2005-6, governo José Serra, PSDB) e prefeito (2006-13) de São Paulo, ministro das Cidades (governo Dilma Rousseff, PT, 2015-16) e da Ciência e Tecnologia (governo Michel Temer, MDB, 2016-18). Foi do PL, PFL, DEM e, em 2011, fundou o PSD, que preside. Foi secretário de Governo da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).

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