SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nem Paramount nem Warner Bros. Discovery. Agora que a fusão bilionária entre as empresas enfim se concretizou, nesta terça, o estúdio de David Ellison -que absorve agora a dona dos heróis da DC, de “Looney Tunes”, do bruxo Harry Potter e de tantos outros- anunciou que a companhia será batizada de Skydance.
O nome vem da produtora original de Ellison, criada em 2006 e que controla a Paramount desde o ano passado. Essa “dança dos céus”, em tradução literal, reflete a ambição do CEO, que promete lançar 30 filmes nos próximos dois anos e mais 32 nos três anos seguintes.
É um número alto na comparação com o que chegou aos cinemas no ano passado, quando a Warner lançou 11 filmes e a Paramount -dona de sagas como “Star Trek”, “Missão: Impossível” e “O Poderoso Chefão”- nove.
Apesar de esses estúdios estarem entre os mais tradicionais do ramo, a pesquisadora americana Amanda Lotz diz que o número de produções anuais pode diminuir, já que as ondas de demissões que marcaram as empresas nos últimos anos devem continuar.
A meta difícil de ser atingida, porém, não é a única preocupação de quem critica o acordo de US$ 110 bilhões, cerca de R$ 548 bilhões, desde o anúncio em fevereiro, quando Ellison superou a Netflix na disputa por um estúdio assolado por grandes dívidas.
O cenário da união entre a Warner e o serviço de streaming, anunciada no fim de 2025, causou preocupações pelo que poderia representar para as salas de exibição e para a concentração de mercado. Agora, há quem diga que o elo entre a Paramount e Donald Trump deve subordinar parte de Hollywood aos desejos do presidente e reduzir a liberdade criativa.
Não à toa, há quase um ano, o americano decidiu suprir a carência de “masculinidade clássica” e exigir a volta de “A Hora do Rush”. O resultado foi o anúncio do quarto longa da saga de ação, a ser dirigido por Brett Ratner. Em janeiro, após anos afastado da indústria por acusações de crimes sexuais, o diretor lançou um documentário sobre a primeira-dama, Melania Trump.
Por trás dessa relação está o pai do chefe da Paramount, Larry Ellison, um dos fundadores da big tech Oracle, apoiador de campanhas do republicano e membro de seu conselho de ciência e tecnologia. Chamado por detratores de “presidente das sombras”, ele é hoje um dos conselheiros mais próximos a Trump e acompanhou de perto as negociações entre a Paramount e a Warner.
É que a fusão precisou passar pela Justiça americana, que aprovou, na semana passada, após meses de impasse, um acordo com uma coalizão entre 12 estados, liderados pela Califórnia. A terra dos estúdios havia tentado bloquear a fusão, afirmando que isso causaria demissões em massa -Ellison diz que cortes operacionais estão por vir, frente a uma dívida conjunta de US$ 80 bilhões- e impactaria negativamente os custos de produção.
A conclusão foi que o processo não trará riscos à concorrência -mesmo que grupos como o Cinema United, maior entidade de exibidores americanos, apontem que a Skydance dominará 40% do calendário de estreias. No Brasil, o Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, entendeu que o mercado de distribuição nacional é capaz de lidar com a fusão, sem restrições.
Os trâmites com a Justiça americana resultaram num acerto que, fora a meta de lançamentos -que estipula ainda uma janela exclusiva nos cinemas de 45 dias-, prevê obrigações milionárias com grupos como o sindicato de roteiristas e atores americanos e a criação de um conselho para garantir a isenção da CNN, emissora que pertencia à Warner, e da CBS News, da Paramount -hoje dirigida pela jornalista conservadora Bari Weiss, nomeada por Ellison.
A Skydance terá seis meses para nomear os cinco membros desse time, que poderá ter no máximo duas pessoas de um mesmo partido. Na prática, porém, o órgão não poderá impedir contratações ou demissões de diretores. Veículos como o jornal The Washington Post sugerem ainda que esse conselho será apenas simbólico.
A CNN e a CBS vêm de meses de atritos com Trump, que as acusa de divulgar informações falsas e tentar manipular a opinião pública. Recentemente, inclusive, a CNN processou o governo por violar a Primeira Emenda, que garante a livre expressão, após seus profissionais terem sido vetados na Casa Branca. Apesar de ter vencido o caso, a emissora segue impedida de cobrir eventos específicos.
A aquisição também recebeu o aval da Comissão Federal de Comunicações americana, a FCC, que regula a mídia no território do país. Para a aprovação, o órgão exigiu que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, entre outros países estrangeiros que participaram como investidores, não opinem sobre linhas editoriais, produções audiovisuais e o quadro de executivos.
Em 2025, a FCC também aprovou a união entre a Paramount e a Skydance original, transação avaliada em US$ 8 bilhões. Antes de obter a aprovação, o estúdio também pôs fim a uma ação milionária em que era alvo de Trump. Ele acusava a CBS de ter favorecido a adversária Kamala Harris durante as eleições.
Na mesma época, sob o pretexto de cortes financeiros, a rede cancelou uma de suas principais atrações -The Late Show with Stephen Colbert, talk show líder de audiência no país, que costumava satirizar o político. Pouco antes, a Paramount adiou a 27ª temporada de “South Park”, que retratou Trump como um amante de Satanás.
Com o anúncio de que os chefes da Paramount Pictures, Dana Goldberg e Josh Greenstein, serão os responsáveis por coordenar os estúdios -ainda que a ideia seja manter duas estruturas de produção-, longas de teor crítico, como o premiado “Uma Batalha Após a Outra”, que denuncia as atuais políticas de imigração, e o recém-lançado “Digger”, ambos feitos pela Warner, podem sumir da lista de grandes estreias.
O último, dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, retrata um magnata egoísta que provoca um apocalipse ambiental. O longa de US$ 150 milhões naufragou nas bilheterias e tem sido descrito como um fim simbólico para a Warner, um dos poucos estúdios que, mesmo entre fracassos recentes, insistia em lançar obras originais num mercado saturado de continuações.
Editor da revista Screen Daily, Jeremy Kay diz temer o impacto da fusão sobre filmes independentes, que costumam ser ainda mais provocativos. Segundo o acordo, 20% dos lançamentos anuais da Skydance devem ser blockbusters, e a empresa só precisa se preocupar com 4 longas independentes ao ano.
Enquanto isso, as séries da HBO Max, que pertencia à Warner, continuam sendo aclamadas por narrativas que abordam temas espinhosos. Há dois meses, por exemplo, uma atração com o personagem Lanterna Verde pôs o herói numa guerra étnica entre humanos e alienígenas. Já a premiada “The Pitt” dedicou um episódio da última temporada a denunciar abusos do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos.
Ainda não há uma data para a junção entre a plataforma e o Paramount+, mas o teor das produções pode ser alterado no futuro, embora David Ellison tenha prometido manter a essência da HBO. Com a integração entre dois catálogos digitais extensos, é esperado, também, que o valor das assinaturas aumente pelo mundo.
Do lado da Paramount, o estúdio tem sido criticado por títulos como “Ebenezer”, filme previsto para novembro com o polêmico Johnny Depp, longe de Hollywood desde os embates com a ex-mulher, a atriz Amber Heard. Apesar do sucesso nas bilheterias, “Pânico 7”, por sua vez, esteve no centro de polêmicas após Melissa Barrera, a estrela de capítulos anteriores, ter sido demitida por defender a Palestina.
Ela e Mark Ruffalo estão entre os principais artistas que têm sido punidos por criticar as ações de Israel em Gaza. Há pouco tempo, Ruffalo liderou um movimento oposto à fusão dos estúdios e foi acusado por Larry Ellison, pai do CEO da Paramount, de antissemitismo. Em agosto, o ator divulgou um vídeo que cita “tecnologias assustadoras” da Oracle, a big tech do empresário, e que teriam ligações com militares israelenses.
“Nunca foi apenas uma fusão. Era uma luta contra bilionários oligarcas corruptos que atropelam os interesses dos outros”, escreveu o artista na semana passada. “Ainda estamos nessa luta.”
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