As doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte no Brasil e no mundo, e o colesterol elevado está entre os fatores de risco mais relevantes. De acordo com a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025, aproximadamente uma em cada três pessoas no Brasil apresenta colesterol total acima de 200 mg/dL, enquanto cerca de um em cada cinco adultos possui níveis elevados de LDL-colesterol, condição que, na maioria das vezes, evolui de forma silenciosa e só é identificada em exames de rotina.
Apesar de ser frequentemente associado apenas à alimentação, o colesterol é uma substância essencial para o funcionamento do organismo. Presente em todas as células do corpo, participa da produção de hormônios, da vitamina D e da formação das membranas celulares. O problema surge quando seus níveis, especialmente do LDL, conhecido como “colesterol ruim”, se elevam, favorecendo o acúmulo de placas de gordura nas artérias e aumentando significativamente o risco de doenças cardiovasculares.
O colesterol circula no sangue por meio de diferentes lipoproteínas, sendo as principais o LDL (lipoproteína de baixa densidade) e o HDL (lipoproteína de alta densidade). Enquanto o LDL transporta colesterol para os tecidos e, em excesso, pode se depositar nas paredes das artérias, o HDL exerce o papel oposto, removendo o excesso da circulação e o leva de volta ao fígado para eliminação, razão pela qual é conhecido como “colesterol bom”.
Segundo a Dra. Rosangeles Konrad, médica e professora da pós-graduação em Cardiologia da Afya Educação Médica Brasília, um dos maiores desafios é justamente o fato de o colesterol alto não provocar sintomas na maioria dos casos. “O colesterol elevado costuma evoluir de forma silenciosa, e esse é um dos aspectos que mais preocupam. O paciente pode passar anos com o LDL alto, favorecendo a formação de placas nas artérias, sem apresentar qualquer sintoma. Não há dor, mal-estar ou outro sinal que chame atenção. Muitas pessoas só descobrem a alteração em um exame de rotina ou, infelizmente, após um evento cardiovascular, como infarto ou acidente vascular cerebral (AVC). Por isso, é fundamental manter o acompanhamento médico e realizar exames periódicos, especialmente quem tem histórico familiar, hipertensão, diabetes, obesidade ou outros fatores de risco.”
A especialista destaca que o diagnóstico precoce do colesterol alto ainda é um desafio, já que a doença costuma ser assintomática. Enquanto alguns pacientes descobrem a alteração durante exames de rotina e conseguem iniciar o tratamento antes do surgimento de complicações, muitos só recebem o diagnóstico após sofrerem um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC). Para ela, a baixa adesão aos exames preventivos entre pessoas sem sintomas continua sendo um dos principais entraves para reduzir a incidência das doenças cardiovasculares. “O cenário ideal é descobrir o colesterol alto durante um check-up de rotina, quando ainda há tempo para agir e evitar complicações. Infelizmente, muitos pacientes só recebem esse diagnóstico depois de um infarto ou de um AVC, o que reforça a importância dos exames periódicos, mesmo para quem se sente saudável”, afirma.
Além da predisposição genética, a cardiologista explica que os hábitos de vida exercem influência direta sobre os níveis de colesterol. Alimentação rica em gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados, sedentarismo, tabagismo e excesso de peso contribuem para o aumento do LDL e aceleram a formação de placas nas artérias. “Em muitos pacientes, principalmente os de risco baixo a moderado, só a mudança de hábitos já consegue reduzir o colesterol de forma bastante significativa. Quando necessário, o tratamento medicamentoso complementa essa estratégia para proteger o coração”, afirma.
Para pacientes com risco cardiovascular elevado ou doenças genéticas, como a hipercolesterolemia familiar, as mudanças no estilo de vida costumam precisar ser associadas ao tratamento medicamentoso. Atualmente, além das estatinas, existem opções como ezetimiba, ácido bempedoico e inibidores de PCSK9 (proteína produzida no fígado que se liga aos receptores de LDL) , indicadas conforme o perfil e o risco de cada paciente. “Hoje não dependemos apenas das estatinas. O arsenal terapêutico cresceu bastante nos últimos anos, permitindo um tratamento mais individualizado e melhores resultados no controle do colesterol”, destaca a médica da Afya.
9 orientações de como manter o colesterol em níveis saudáveis, segundo a cardiologista
- Priorize alimentos naturais, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e leguminosas, que são ricos em fibras e ajudam a reduzir a absorção do colesterol.
- Inclua fontes de gorduras saudáveis na alimentação, como azeite de oliva, castanhas, nozes, sementes e peixes ricos em ômega-3, que contribuem para a proteção do coração.
- Reduza o consumo de gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados, presentes em frituras, embutidos, carnes gordurosas e produtos industrializados, que favorecem o aumento do colesterol LDL (“ruim”).
- Pratique atividade física regularmente, acumulando pelo menos 150 minutos de exercícios de intensidade moderada por semana para melhorar os níveis de colesterol e a saúde cardiovascular.
- Mantenha um peso corporal adequado, já que o excesso de peso está associado ao aumento do colesterol e do risco de doenças cardiovasculares.
- Evite fumar e limite o consumo de bebidas alcoólicas, pois esses hábitos aumentam o risco de problemas cardiovasculares e comprometem a saúde do coração.
- Controle também a pressão arterial e os níveis de glicemia, especialmente se houver hipertensão ou diabetes, já que essas condições potencializam os danos causados pelo colesterol elevado.
- Realize exames periódicos, especialmente se houver histórico familiar de colesterol alto ou doenças cardiovasculares, para identificar alterações precocemente e iniciar o tratamento quando necessário.
- Siga corretamente o tratamento prescrito pelo médico e não interrompa os medicamentos por conta própria, pois fármacos como as estatinas precisam de uso contínuo para manter o colesterol sob controle e reduzir o risco de complicações cardiovasculares.
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