IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Crimeia, península que Vladimir Putin anexou em 2014 no sul da Ucrânia, decretou estado de emergência nesta sexta-feira (26) devido aos ataques das forças de Kiev contra a região.
Segundo escreveu no Telegram o governador local, Serguei Aksionov, todas as atividades relacionadas ao turismo e a venda de combustível estão suspensas. Isso ocorre no início da temporada de verão, principal fonte de renda da Crimeia, que abriga cerca de 2,4 milhões de moradores.
Nesta semana, Sebastopol, a maior cidade da r egião, já havia determinado toque de recolher às 20h para o comércio, a suspensão dos serviços de transporte noturnos e a redução da iluminação pública para dificultar o trabalho dos drones ucranianos.
“A vida está ficando difícil. Eu alugo uma antiga datcha [casa de veraneio] da minha família na costa, perto de Ialta [sul], é de onde tiramos boa parte da renda do ano”, afirmou por mensagem de texto Olga, moradora de Sebastopol que pediu reserva sobre seu sobrenome.
Ela é uma das raras ucranianas étnicas que não deixou a região após Putin anexá-la em retaliação pela derrubada do governo pró-Moscou em Kiev no começo de 2014. Desde então, as relações entre os vizinhos azedaram de vez, culminando na invasão total dos russos em 2022.
Nas últimas semanas, o governo de Volodimir Zelenski tem escalado a guerra assimétrica contra os russos, focando principalmente o sistema energético dos rivais.
Isso tem levado a uma crise de combustíveis generalizada, com falta de gasolina em diversas regiões.
O Kremlin reagiu anunciando o estudo de medidas para conter a questão, como o veto à exportação de diesel, o que afetaria diretamente compradores como o Brasil. O aperto preocupa Putin, cioso de sua alta popularidade, na casa de quase 80%, mas em declínio desde o começo do ano.
No esquema das coisas de seu governo iniciado em 1999, o líder conta com o apoio na sociedade para validar seu regime junto a uma elite fracionada por interesses díspares. “Nós ainda apoiamos Putin, mas algo precisa ser feito”, diz Olga.
Segundo a reportagem ouviu no começo da semana de duas pessoas próximas do Kremlin, há um temor de que esse “algo” seja uma escalada ainda maior da guerra, talvez até o impensável uso de armas nucleares de menor potência contra a Ucrânia.
As Forças Armadas de Kiev e a diplomacia da União Europeia suspeitam de uma renovada ofensiva pelo norte contra a capital da Ucrânia, a partir de Belarus, ou de provocações contra o flanco oriental da aliança ocidental Otan, algo que o premiê polonês, Donald Tusk, prevê para as próximas semanas.
Algumas vozes da linha-dura russa foram a público. “O que mais é preciso acontecer para que a gente comece a lutar de verdade? Guerra é vitória a todo custo. Por que não estamos usando armas nucleares?”, disse o empresário nacionalista Konstantin Maofeiev à mídia estatal.
A pressão sobre a Crimeia ao mesmo tempo tática, dada a vulnerabilidade da península, e estratégica, devido ao seu caráter simbólico e importância militar -ela sedia a Frota do Mar Negro russo desde 1783 em Sebastopol, cujas instalações os russos alugavam após o colapso da União Soviética em 1991.
Nesta semana, os ucranianos destruíram uma ponte ferroviária ligando a região à área ocupada de Kherson, cortando 1 das 2 artérias logísticas para trens militares para a Rússia. Nesta sexta, a energia em boa parte dessa área vizinha à Crimeia foi cortada por ataques com drones, e uma pessoa morreu na fronteira.
O transporte de passageiros segue sendo feito a leste, pela famosa ponte da Crimeia, obra faraônica inaugurada por Putin em 2018 que liga a península ao território continental russo.
Baterias antiaéreas foram deslocadas para proteger ainda mais a obra, vista como a joia da coroa dos alvos de Kiev na região. Não está claro como a suspensão de atividades de turismo irá afetar o tráfego, que já era restrito, como a Folha de S.Paulo mostrou ao atravessá-la no fim de 2024.
Segundo relatos de blogueiros militares russos, trabalhos de reconstrução estão avançados, mas a decretação da emergência sugere uma crise agravada.
Desde os tempos do Império Russo (1613-1917), a Crimeia é um ponto preferencial de turismo para os russos graças a seu tempo mais ameno e praias. No ano passado, as autoridades locais disseram ter recebido 6 milhões de turistas, embora estimativas mais realistas falem algo na casa da metade disso -ataques de Kiev são uma constante.
Ainda nesta sexta, os ucranianos e russos trocaram mais fogo em ataques aéreos. Uma refinaria na região russa de Tula foi atingida, recebendo danos, assim como uma fábrica de amônia e fertilizantes. Na mão contrária, uma pessoa morreu em um ataque na região de Sumi (norte).
Mesmo com as hostilidades, houve algum contato diplomático nesta sexta, com Moscou e Kiev trocando 160 prisioneiros de guerra de cada lado.
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