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Linchamento em Copacabana expõe suspeitas contra grupos de vigilantes e justiceiros no Rio

Linchamento em Copacabana expõe suspeitas contra grupos de vigilantes e justiceiros no Rio

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Grupos organizados para agredir pessoas em situação de rua e supostos suspeitos de furtos e roubos atuam há pelo menos três anos em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. A informação consta em inquérito da Promotoria, relatos de moradores e observadores de direitos humanos na cidade.

A participação de seguranças em agressões é alvo de investigação da Polícia Civil pela morte de Cláudio Rafael Landeiro, 37, vítima de linchamento no dia 12 de agosto, após ser falsamente acusado do roubo de uma bicicleta que pertencia à irmã.

Segundo a polícia, um segurança e dois homens com mochilas de entregadores participaram da ação, além de um segundo vigilante que teve participação acessória. Quatro pessoas foram presas. A reportagem não conseguiu identificar as defesas.

Os moradores de Copacabana afirmam que dois movimentos de justiçamento ocorrem simultaneamente há pelo menos três anos.

Um deles é formado por seguranças de bares e restaurantes do bairro, que recebem para fazer a vigilância noturna dos estabelecimentos e são contratados, na prática, para evitar que pessoas em situação de rua peçam dinheiro ou comida aos clientes.

Dois moradores do bairro que não quiseram se identificar afirmam que há histórico de agressões. A vigilância acontece principalmente em ruas com bares e restaurantes, como as ruas Belford Roxo e Duvivier.

Davi Santos Machado, preso sob suspeita de ter agredido com golpes de porrete Cláudio Rafael, atuava como segurança na rua Duvivier, próximo ao beco das Garrafas, símbolo da noite de Copacabana desde os anos 1950.

Um registro de ocorrência aberto em junho na 12ª DP relata supostas agressões de Davi contra uma mulher. No registro, ela afirma aos policiais que tinha sido agredida “por alguns indivíduos” na madrugada, em uma rua de Copacabana, e reconhece Davi como um dos autores da agressão. Ele negou à polícia a agressão.

Ainda segundo os moradores, os vigilantes atuam com porretes e armas de choque.

O outro grupo diz atuar na vigilância voluntária do bairro, mas sai às ruas em busca de quem considera ser suspeito de roubos e furtos, principalmente no período de verão, conforme o Ministério Público.

Esse grupo, autointitulado AGVC (Anjos da Guarda Vigilância Comunitária), é alvo de inquérito da 3ª Promotoria da Infância e Juventude do Rio de Janeiro.

O fundador, o candidato a deputado federal William Correia (DC), foi proibido em maio pela Justiça do Rio de participar, divulgar ou mencionar as ações.

Apesar da proibição, William escreveu ter “orgulho” nos comentários de um vídeo publicado na última semana no perfil da AGVC, que mostra agressão coletiva a um suspeito, segundo eles, de furto de celular.

A reportagem apurou que, a pedido da Promotoria, há um inquérito em andamento na 12ª DP sobre a suposta prática de espancamentos promovida pela associação contra suspeitos de crimes patrimoniais.

A reportagem ligou para William Correia nesta sexta-feira, mas ele não atendeu.

Em conversa com a Folha em outubro de 2025, ele defendeu a atuação, afirmando que “a população está de saco cheio, então, estão pegando [suspeitos] e, em vez de segurar, estão agredindo, mesmo, e às vezes filmam”.

À época, ele disse que existe uma “linha muito tênue” entre a imobilização de suspeitos, o que ele afirma defender, e a agressão deliberada. “Às vezes, um popular bate em uma pessoa menor de idade e cai na minha conta. Estou recebendo processos que, na verdade, não são de atuação minha”, disse.

Nas redes sociais, o grupo AGVC disse lamentar o espancamento de Cláudio Rafael.

“O AGVC acredita na participação ativa da população na segurança da nossa comunidade. Mas participação ativa não significa fazer falsa justiça através de linchamento, ainda mais de um inocente. Uma suspeita não é uma condenação”, afirmou o grupo.

“Esse grupo incentiva a violência. Eles se filmam batendo em garotos, para surtir como efeito de ameaça, na linha do ‘se aparecer aqui, vai apanhar’. Temos o receio de que isso possa aumentar”, afirma Marcia Gatto, representante da Rede Rio Criança, que desenvolve ações que buscam garantir direitos a crianças e adolescentes em vulnerabilidade social.

Investigação

A Polícia Civil apura se os vigilantes envolvidos na morte de Cláudio Rafael exerciam a função de forma clandestina.

Segundo Ângelo Lages, delegado titular da 12ª DP, a legislação federal autoriza empresas de segurança privada a atuar apenas dentro de estabelecimentos e prédios. Não é permitido o policiamento de vias públicas por seguranças contratados pelo comércio local, como supostamente ocorria no caso.

A seção do Conselho Tutelar que atua em Copacabana tem dossiês de grupos autodenominados de “justiceiros da zona sul”. Perfis nas redes sociais divulgam as ações dos justiceiros, com fotos e vídeos. A maioria das gravações envolve agressão ou imobilização de crianças e adolescentes que são, para o grupo, suspeitas de furto.

Em um dos casos, ocorrido em 2025, um adolescente foi levado por policiais à delegacia porque tinha sido ameaçado de espancamento. Do lado de fora da unidade policial, um grupo aguardava a liberação do adolescente.

A vítima da ameaça estava em situação de rua, não aceitava acolhimento e era dependente químico. Tão recorrentes são os casos que justiceiros conhecem conselheiras tutelares pelo nome.

A organização de moradores a fim de coibir furtos e invasões a ônibus começou na zona sul carioca na década de 1990. Com a circulação de notícias dando conta de supostos furtos em massa nas areias das praias, membros de academias de jiu-jítsu de Copacabana cometiam agressões.

Uma nova onda de justiceiros surgiu em 2014 –na época, ônibus que saíam de bairros do subúrbio carioca mudaram de itinerário para dificultar a chegada à praia. Moradores relatam que o crescimento de grupos justiceiros voltou a se intensificar nos últimos dez anos.

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