SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O líder chinês Xi Jinping declarou nesta quarta-feira (2) apoio à iniciativa de países do Oriente Médio de formar uma aliança militar independente, posicionando a potência asiática quando a região é remodelada geopoliticamente pela guerra dos Estados Unidos com o Irã.
Xi está no Cairo para uma visita de Estado, a primeira que faz à região desde o fim de 2024, pouco antes da volta de Donald Trump ao poder na Casa Branca. Ele foi recebido pelo ditador Abdel Fattah al-Sisi, ator central no jogo de poder do Oriente Médio.
Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, o líder afirmou que “os povos do Oriente Médio devem ser os mestres de seus próprios assuntos”, e que “a interferência externa deve ser rejeitada” -no caso, claro, a americana.
Xi afirmou que “a China apoia países da região na construção de uma nova arquitetura de segurança”, referência direta ao Acordo de Meca, pacto militar inédito que uniu Turquia, Arábia Saudita e Paquistão no dia 7 do mês passado.
A aliança é o mais eloquente sinal das mudanças que começaram a ganhar corpo quando os terroristas palestinos do Hamas atacaram Israel em 2023, disparando uma guerra regional que enfraqueceu a rede de apoio construída pelo Irã, então mais agressivo país da região.
O pacto é uma resposta à realidade criada após o ataque dos Estados Unidos, com apoio do Estado judeu, à teocracia. A guerra, algo adormecida desde julho, voltou nesta terça (1º) a registrar ataques mútuos entre americanos e iranianos.
As potências muçulmanas, inclusive o nuclear Paquistão, querem mostrar unidade ante as retaliações de Teerã contra os vizinhos aliados dos EUA, mas principalmente fazer frente ao poderio militar crescente de Israel.
Com efeito, o Estado judeu já se estranhou com os rivais turcos na Síria, país em que uma ditadura hostil a Tel Aviv apoiada pelo Irã foi substituída por um regime liderado por rebeldes jihadistas igualmente refratários ao Estado judeu com o apoio de Ancara.
Trump até aqui havia elogiado o pacto militar, até porque ele coaduna com sua Estratégia de Segurança Nacional de 2025, que prega o desengajamento americano de regiões em crise, deixando para os atores locais questões de defesa.
O problema para o americano é que isso pressupõe que os tais atores locais sejam seus aliados, e aí começa a dificuldade de colocar à mesa rivais como Israel e os integrantes do Acordo de Meca.
A aproximação que Trump trabalhava desde 2020 entre os governos da região e Tel Aviv foi erodida com a destruição da Faixa de Gaza no pós-2023.
Xi então tocou violino para o anfitrião, reafirmando apoio à causa palestina e dizendo que ela permanece uma questão central para a paz no Oriente Médio. Com isso, remete justamente à solidariedade retórica com os palestinos vigente na região, em oposição à aliança de Trump com Binyamin Netanyahu.
Xi vinha tentando entrar no jogo do Oriente Médio nos últimos anos, tendo mediado uma aproximação entre sauditas e iranianos. Mas a confusão atual deixou os chineses, sem musculatura militar na região, de lado.
Pior para Pequim, que era destino de 90% do petróleo barato do Irã, vendido por meio de atravessadores como a Malásia. Os chineses, com grandes reservas, têm suportado a crise de preços com o fechamento do estreito de Hormuz, mas pressionam por uma saída diplomática rápida.
Como ela não vem, Xi foi ao Egito tentar assento na nova realidade. A ditadura local é cortejada pelos membros do Acordo de Meca para integrar o time, o que daria peso militar e político literalmente cercando Israel -apesar de os países terem relações normalizadas.
Além da questão energética, a China tem no Oriente Médio seu principal destino de investimentos de seu projeto de expansão econômica, apelidado de Nova Rota da Seda. Em 2024, houve um salto de 100% nas operações, com US$ 39 bilhões chineses aplicados na região.
Na via contrária, fundos soberanos de países como os Emirados Árabes Unidos foram responsáveis por 60% da entrada de capital externo na China no mesmo ano, segundo dados do governo em Pequim.
O Egito em si tem uma fatia pequena do jogo, com cerca de US$ 8 bilhões chineses investidos em infraestrutura, mas sua importância é política e estratégica: o país opera o canal de Suez, rota por onde passa a maioria das exportações chinesas para a Europa.
Para a segunda economia do mundo, investimento direto no exterior é mais um instrumento geopolítico, dado que em 2025 ele representou 0,2% do PIB do país. Pequim vive de exportar, e por isso uma posição firme no centro de fornecimento de insumos energéticos para sua indústria e na rota por onde passa o comércio estratégico é vital.
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