(FOLHAPRESS) – Após dez anos longe dos palcos, Beth Goulart volta a São Paulo para uma nova temporada do espetáculo “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”, que marcou sua trajetória. A peça estreou na sexta-feira (8), no Teatro Moise Safra, e retorna à capital paulista 16 anos depois da primeira montagem.
Nesse intervalo, a atriz atravessou perdas, envelheceu, reviu a própria relação com a obra de Clarice Lispector, a quem intrepreta na obra, e diz que hoje entende a escritora de outro lugar. “Eu acho que estou mais perto da Clarice hoje do que há 17 anos”, afirma ao F5. “Talvez eu tivesse mais vigor antes. Hoje eu tenho mais domínio.”
O espetáculo estreou em 2009, depois de dois anos de pesquisa sobre a autora. Desde então, passou por 298 cidades e foi visto por mais de 1,3 milhão de pessoas. A estrutura da montagem permanece a mesma, mas Beth afirma que o tempo alterou o peso das palavras e das emoções em cena.
Ela cita a morte dos pais e a pandemia como acontecimentos que transformaram sua leitura da peça. “Hoje eu tenho intensidade”, diz. “A maturidade dá essa qualidade pra gente. A gente tem mais controle daquilo que quer falar.”
O monólogo mistura entrevistas, cartas e trechos de livros de Clarice. Beth interpreta a escritora e também personagens femininas criadas por ela, como Joana, de “Perto do Coração Selvagem”, Lori, de “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, e Ana, do conto “Amor”.
É Ana que aproxima o espetáculo do Dia das Mães, data em que a peça terá uma sessão especial voltada para quem quiser levar os pequenos. Na história de Clarice, a personagem vive uma rotina doméstica dedicada ao marido e aos filhos até ter a vida atravessada por uma espécie de ruptura íntima no Jardim Botânico. Para Beth, a maternidade ocupa um lugar central não só na obra da autora, mas também na experiência feminina.
“A primeira experiência de amor que vivenciamos na vida é através das nossas mães”, afirma. “Quando você se torna mãe, aprende a pensar mais no outro do que em si mesma.”
Beth lembra que Clarice perdeu a mãe aos dez anos, experiência que atravessa vários de seus textos. Segundo a atriz, a escritora transformou esse sentimento em matéria literária. “Ela fala da importância da mãe e também da ausência dela. Isso aparece de várias maneiras no espetáculo.”
A atriz também relaciona a maternidade à ideia de coletividade presente na obra clariceana. Para ela, esse sentimento amplia a percepção sobre o outro e sobre o mundo. “O amor é a mãe da generosidade, da solidariedade, da compaixão”, diz.
O teatro aproveitou a proximidade para criar sessões que chamou de “Rede de Apoio”, voltadas para mulheres com filhos de colo e crianças pequenas. A proposta inclui recreação infantil para que mães possam assistir ao espetáculo sem precisar ficar longe dos rebentos.
Beth diz que abraçou a iniciativa assim que recebeu o convite. “É uma instituição aberta que acolhe essas mães. Achei linda essa ideia.”
Embora a peça exista há mais de uma década, Beth afirma que o público mudou bastante. Em 2025, mais de 22 mil jovens assistiram ao espetáculo durante as temporadas no Rio de Janeiro. Para ela, a nova geração encontrou Clarice por caminhos diferentes, inclusive pelas redes sociais, mas chega ao teatro em busca de profundidade.
“A velocidade joga a gente para fora. A pausa joga a gente para dentro, que é a proposta da literatura da Clarice”, afirma.
Beth vê nessa procura uma reação ao excesso de estímulos do ambiente digital. Ela diz que a experiência teatral cria um espaço raro de silêncio e atenção coletiva. “É importante valorizar a experiência humana presencial, porque isso o teatro não substitui.”
A temporada paulistana também terá a mostra “Entre Ela e Eu”, exposição inédita sobre o processo de criação da peça e sobre a relação de Beth com a obra de Clarice Lispector.
Mesmo depois de centenas de apresentações, a atriz afirma que ainda se surpreende no palco. “Cada noite é uma experiência nova”, diz. “A literatura da Clarice fala sobre a existência. Ela fala sobre quem a gente é.”














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